Três razões porque pregar o Cântico dos Cânticos

por David Merkh [1] |


Uma das mais ricas experiências na minha jornada de mais de 30 anos como expositor bíblico foi abordar o livro de Cântico dos Cânticos, versículo por versículo, em oito mensagens para o povo da Primeira Igreja Batista de Atibaia. Ao mesmo tempo, tenho vergonha de admitir que, mesmo como defensor da exposição sistemática das Escrituras e com chamado voltado para o ministério familiar, demorou tanto tempo para abordar o livro bíblico mais voltado para o relacionamento conjugal.


Alguns questionam se é válido no contexto eclesiástico expor um livro tão franco e de conteúdo tão delicado como Cantares[2]. Por exemplo, Parsons afirma que “pregar Cantares seria inapropriado na maioria dos contextos congregacionais por causa da sua linguagem franca e conteúdo especializado”.[3]


Certamente, pregar Cantares no contexto geral da igreja levanta questões filosóficas e homiléticas importantes, que embora não possam ser respondidas exaustivamente neste ensaio, certamente merecem alguma consideração. Cabe aqui algumas reflexões importantes e relevantes em termos do uso do livro de Cantares nos dias atuais. A seguir, três razões porque devemos pregar o Cântico dos Cânticos hoje.


1. Devemos pregar Cantares para ministrar “Todo o Desígnio de Deus”


Em dias em que somos inundados pelas águas turvas e poluídas de perversão sexual e desvalorização do matrimônio, as águas cristalinas do Cântico dos Cânticos oferecem refrigério para o Corpo de Cristo e instrução para seus membros sobre o plano divino para o amor, romance, casamento e sexo.


O Apóstolo Paulo disse aos presbíteros de Éfeso, “Jamais deixei de anunciar coisa alguma proveitosa... publicamente e também de casa em casa” (At 20.20) Continuou, “Jamais deixei de anunciar TODO O DESÍGNIO DE DEUS” (At 20.27). Será que seu ministério de exposição bíblica incluiu o livro de Cantares? Cantares é “proveitoso” para toda a igreja ou somente para alguns?


A pergunta sobre o contexto e a legitimidade da exposição bíblica de Cantares toca numa questão maior: Há livros bíblicos que não devem ser ensinados publicamente, mas somente particularmente ou em grupos específicos? É válido pregar Cantares para a igreja toda? Ou será que deve ser reservado para encontros ou retiros de casais, ou talvez o aconselhamento pré-nupcial?[4]


Entendemos que o livro de Cantares não somente PODE mas DEVE ser exposto para toda a igreja. Mas existem considerações homiléticas e pastorais que o expositor sensível deve considerar para manter o bom gosto que o próprio livro exemplifica. Mesmo um estudo superficial de Cantares revela um desafio assustador: o que fazer com os textos “sensíveis”, ou seja, que tratam de assuntos íntimos como a relação sexual do casal e descrições do corpo humano?


Em primeiro lugar notamos que a Palavra de Deus quase sempre usa a figura de linguagem conhecida como “eufemismo” para tratar de assuntos de natureza íntima e sexual. Eufemismo vem do grego αὐφημισμός, (aufēmismos) de εὐφημίζειν (euphēmizein), que, por sua vez, vem de εὐ (eu), bem, e φημί (phēmi) dizer. Bullinger define eufemismo como uma substituição em que uma expressão áspera... cede lugar para outra menos ofensiva.[5]


O livro de Cantares é campeão de eufemismos, pois trata com muito decoro assuntos que consideramos sensíveis ou até mesmo pesados. O expositor deve seguir seu exemplo. Gledhill afirma que o expositor nunca deve violar o modelo do Cântico, que expressa o fascínio sensual dos amantes sem se tornar pornográfico.[6] Leland Ryken enfatiza que “O modo simbólico de Cantares, em que consumação sexual, por exemplo, é retratada na figura de possuir um jardim... tem embutido em si mesmo uma certa reserva que mantém o poema longe de ser pornografia.”[7]


Parsons acrescenta:


O expositor deve exercer grande cuidado ao explicar as metáforas de Cantares que contêm possíveis eufemismos ou termos de duplo sentido (como em 7.2) para evitar ofender os ouvintes ou até levá-los a cair em pensamentos impuros, por ser explícito demais na explicação do seu significado sexual.[8]


Cremos que o expositor criativo e sensível não somente pode mas deve ensinar esse livro dentro da dieta bíblica que oferece à igreja. Mas além do ministério de púlpito, o livro pode ser usado em encontros de casais, classes de Escola Bíblica ou grupos pequenos, no ministério com adolescentes e jovens (observando as cautelas mencionadas aqui), no aconselhamento pré- e pós-nupcial, no aconselhamento bíblico de casais e de forma devocional pelos próprios casais.


2. Devemos pregar Cantares como antídoto contra o mundo perverso, corrompido e confuso sobre amor, romance e sexo.


Enquanto o mundo fala muito sobre a paixão e o amor verdadeiro, alguns acham que Deus tem vergonha da sexualidade humana. Nada pode ser mais distante da verdade! Deus não somente fala sobre a paixão romântica, mas foi Ele quem a criou e abençoou. Não é de estranhar que Ele dedicou um livro inteiro da Bíblia para tratar desse assunto. G. Lloyd Carr comenta, “Se Deus está preocupado com a nossa condição humana – e a encarnação deixa claro que Ele está preocupado, sim – então Sua revelação será preocupada com todo aspecto daquela condição. E isso inclui a sexualidade humana.”[9]


Alguns na história da igreja têm alegorizado esse livro (imaginando que sua mensagem só fale do amor de Deus para Israel, ou da "paixão" entre Cristo e Sua igreja). Outros, como São Jerônimo, se assustaram tanto com seu conteúdo escancaradamente sexual, que sugeriram que ninguém o lesse antes dos trinta anos de idade! Mas nada é mais normal do que uma palavra divina sobre o mais importante dos relacionamentos humanos. Deus se interessa, sim, pelo desenvolvimento do amor matrimonial, inclusive o "namoro", as núpcias, a lua de mel e o cotidiano da vida a dois. Deus fala, sim, sobre amor e paixão, e não gagueja!