Quatro razões para pregar Efésios

por Nelson Galvão|


Monumento em honra aos Reformadores. Genebra, Suíça. Fonte: Wikipedia

“Puxa, estou a tanto tempo na igreja e nunca ouvi isso”! Essa tem sido a reação de inúmeras pessoas quando prego Efésios. Essa reação de estranheza se dá por várias razões que não cabe aqui desenvolver. O fato é que, ao longo dos anos, inúmeras igrejas evangélicas pelo mundo têm se afastado do verdadeiro Evangelho. Milhares de pessoas têm ido domingo após domingo à igreja e ouvido um evangelho falso; um evangelho antropocêntrico, marcado pela doutrina da salvação pelas obras, que rouba a glória da pessoa e da obra de Cristo!


Sim, mais do que nunca Efésios precisa ser ressoada em alto e bom som por meio dos púlpitos fiéis que o Senhor tem preservado para si. Espero que as razões a seguir sirvam de encorajamento para você começar a exposição de Efésios na sua igreja.


1- Ajuda a Igreja a crescer no entendimento da Graça de Deus, em detrimento do humanismo reinante.


Paulo começa Efésios com exultação pelas bênçãos de Deus que foram derramadas por meio de Cristo (Ef. 1.3). Por que os crentes foram abençoados por Deus? Paulo responde usando uma expressão: beneplácito (Ef 1.5,9,11); ou seja, de acordo com a boa determinação de Sua vontade. O que é isso? Graça de Deus. Não somos abençoados por conta de nossos méritos, mas pela exclusiva graça de Deus.


Em 1524, em seu livro De libero arbitrio diatribe sive collatio, o humanista Erasmo de Roterdã defendeu que “a vontade do homem é completamente livre” [1]. Esse foi o pensamento antropocêntrico do renascentismo do séc. XVI que culminou no iluminismo do séc. XVIII. Em 1525, Martinho Lutero publicou a resposta a Erasmo em De servo arbitrio. Contra Erasmo, Martinho Lutero se insurgiu a partir da autoridade bíblica, em especial Efésios. A partir de Efésios (e também Gálatas e Romanos), Lutero contrapôs o Pelagianismo de Erasmo. Segundo a Palavra de Deus, o homem está morto em seus delitos e pecados, é escravo de suas paixões, do mundo, e do diabo; portanto, é filho da desobediência e da ira (Ef 2.1-3). Dessa forma, Lutero proclamou em alta voz que jamais o homem pode até mesmo crêr, se isso não for concedido por Deus; ou seja, “a fé é um dom especial conferido por Deus (Ef 2.8)”.


Talvez você esteja pensando: “Isso é calvinismo”. Não! Isso é Efésios!!! Efésios se insurge contra a mentalidade humanista moderna (inclusive presente em inúmeras igrejas evangélicas atuais) de maneira que nos faz enxergar quem realmente somos e ser iluminados pela glória da graça de Cristo. Foi isso que Deus fez comigo. O Senhor usou a carta de Paulo ao Efésios para sobrepujar meu humanismo e a glória da graça de Cristo ser resplandecida em mim. A partir de então, tenho pregado Efésios em todas as ocasiões que tenho oportunidade.


2- Ajuda a Igreja a entender sua própria natureza


O Evangelho criou a Igreja, e não a Igreja o Evangelho. Sendo assim, é entendendo o Evangelho que entendemos a natureza da Igreja.


* A Igreja é plano de Deus. Jesus disse:


Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).


* Em Efésios, Paulo diz que Jesus é o cabeça da Igreja (Ef 1.22,23);

* A Igreja está assentada com Cristo nas regiões celestiais (Ef 2.6);

* A comunhão na Igreja é uma realidade em Cristo (Ef 2:11-3.21);


Perceba que em Ef. 2.13-17, Paulo afirma que o Evangelho trouxe comunhão entre inimigos. Paulo escreve aos gentios de Éfeso. Para estes, Paulo afirma que não existe mais separação entre gentios e judeus, todos são um em Cristo.


Perceba que Paulo, do vs. 13-17, afirma a ação de Deus para formar a comunhão na Igreja entre judeus e gentios:



vs.13 – “antes estáveis longe, fostes aproximados”.

vs. 14 – “de ambos fez um”.

“Derribou a parede de separação que estava no meio, a inimizade”.

vs. 15 - “Dos dois criou, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz”.

vs 16 – “Reconciliou ambos em um só corpo com Deus.

vs. 17 – “Evangelizou paz aos que estavam longe e aos que estavam perto”.


Perceba também que Paulo afirma que a comunhão na igreja é resultado da obra de Cristo (ainda em Ef 2.13-17):


vs. 13 Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto.

vs. 14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade,

vs. 15 isto é, a lei dos mandamentos contidos em ordenanças, para criar, em si mesmo, dos dois um novo homem, assim fazendo a paz,

vs. 16 e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um só corpo, tendo por ela matado a inimizade;

vs. 17 e, vindo, ele evangelizou paz a vós que estáveis longe, e paz aos que estavam perto;

vs. 18 pois por meio dele tanto nós como vocês temos acesso ao Pai, por um só Espírito.


O que Paulo está afirmando é que, por intermédio de Cristo, judeus e gentios são um só povo. Sim, perceba o resultado dessa ação de Cristo, vs.19-22:


Vs. 19 Vocês são concidadãos dos santos e membros da família de Deus

Vs. 20 Vocês são um edifício, cujo alicerce é os apóstolos e profetas; e a pedra angular é Cristo.

Vs. 21,22 Vocês são um santuário, morada de Deus.

Cap. 3:6 – “Os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho”.


É por isso que Paulo ora para que os Efésios pudessem compreender: “a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento, para que sejam cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.18,19).


A Igreja precisa ouvir Efésios porque vivemos em um tempo de profunda confusão quanto à natureza da igreja. Ela é um clube? É um negócio? É um teatro? A Igreja de Cristo é constituída de concidadãos, coerdeiros e coparticipantes da promessa; é a família de Deus, é um edifício, a morada de Deus e o corpo de Cristo.


Sendo assim, dentre outras implicações, podemos ressaltar que a Igreja é a providência de Deus para uma sociedade marcada pelo hiper-individualismo, onde as pessoas estão se matando de solidão em suas próprias casas (e só depois de alguns dias alguém descobre!). Deus providenciou para os Seus filhos uma família, a Igreja. Celebremos a bênção da comunhão que Deus nos dá.


3- Ajuda a Igreja a entender que o Evangelho tem implicações práticas


Perceba as ocorrências do verbo viver no imperativo, a partir do cap. 4 da carta de Efésios:


4:17: “não vivam mais como os gentios”.

5:1: “vivam em amor”

5:8: “vivam como filhos da luz”

5:15: “tenham cuidado com a maneira como vocês vivem”.


O verbo no original (gr. Peripateo) significa: andar, caminhar, regular a própria vida, conduzir a si mesmo, comportar-se. Com isso, Paulo afirmou que aqueles que foram abençoados graciosamente por Deus e foram feitos Seu povo, Sua Igreja, devem agora viver de forma digna do Evangelho.


Dessa forma, a vida do membro da Igreja de Cristo deve contrapor-se aos filhos das trevas (4:17-19). Sendo assim, Paulo começa a dizer como deve ser esses crentes que são diferentes. Observe as três vezes que aparece a conjunção conclusiva “portanto”, no texto: 4:25; 5:1; 5:7.


Essa forma constitui-se de “blocos” textuais utilizados para expressar como devem os crentes ser diferentes.


Portanto, na sua conduta pessoal seja correto (Vs. 25-28 - Não minta, não peque quando ficar irado, não roube).

Portanto, seja imitador de Deus, como filho amado (5:1).

Portanto, não participem com eles dessas coisas.


Além disso, os crentes, capacitados pelo Espírito Santo (Ef. 5.18), devem têr uma família diferente, de acordo com a vontade de Deus para o casamento, criação de filhos, relacionamento entre pais e filhos, e trabalho (Ef. 5.18-6.9).


Efésios precisa ser pregada porque ajuda a Igreja a superar uma falsa dicotomia: Evangelho/vida prática. A igreja atual precisa entender que o Evangelho tem implicações práticas para todos os âmbitos de nossa vida.


4- Ajuda a Igreja a estar consciente da Batalha Espiritual


Efésios 6.10-20 nos mostra que:


4.1- Existe uma luta sendo travada


Perceba que o linguajar é bélico. Não dá para vestir uma armadura para ir para a praia. Existe uma luta! Que luta é essa? Lembre-se que Paulo está advertindo aos crentes de Efésios que vivam de forma digna do Senhor.


Então, o diabo usa de todas as suas forças para que vivamos de forma medíocre, sem fazer diferença, sem ser de fato “igreja” de Cristo.


Ele usa de todos os seus recursos para que não sejamos um marido/esposa, pai/mãe, patrão/empregado que honre a Deus em suas relações.


E sabe de uma coisa? Vamos fracassar! A não ser que...


4.2 - A força pertence a Deus e não a nós.


Perceba a expressão “na força do seu poder” (6:10). Essa expressão em Efésios é utilizada em mais dois lugares além daqui:


1:19 – Descreve o poder que ressuscitou Jesus dos mortos;

3:16 – Descreve o poder que agora está no interior dos crentes.

Esse enorme poder de Deus é dado aos crentes e é com ele que o crente consegue vencer o Inimigo.


4.3 - A armadura é Cristo


Paulo descreve uma armadura da qual o crente precisa se valer a fim de vencer na luta espiritual. Muita coisa se tem dito a respeito dessa armadura. Muitas interpretações têm sido dada a ela. Não é o propósito desse estudo nos determos nas variadas interpretações. Então aqui vai o meu entendimento. Paulo não nos deu um passo-a-passo místico em que devemos recitar todos os dias. Ele tinha em mente Isaías. Perceba que Isaías profetiza a respeito daquele que estava por vir. Este seria o ramo que brotaria de Jessé (11.5), o Servo do Senhor (49.2), o Salvador (59.17). Este personagem que estaria por vir é retratado por Isaías como o Guerreiro que luta por seu povo.


É isso que Paulo tinha em mente. Paulo já havia se referido a Cristo como Guerreiro (Ef 4.8-10), ao aplicar Sl 68.18 a Cristo.


Cristo é o Guerreiro do povo de Deus. Foi Ele quem nos trouxe a bênção de Deus; foi Ele quem nos deu vida, estando nós mortos; foi Ele quem nos fez igreja; É Ele quem nos da a força necessária para vencer as hordas infernais da maldade.


Portanto, a Igreja precisa ouvir que deve se revestir de Cristo. Ele é o poder necessário para a Igreja viver de uma forma digna do Senhor.


Recomendações de leitura:


1- Bray, Gerald (org). Comentário bíblico da Reforma Gálatas e Efésios. São Paulo: Cultura Cristã, 2013. Uma excelente obra para a consulta da exposição dos Reformadores de cartas como Efésios.

2- Pinto, Carlos Oswaldo. Foco do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006. Esta obra do Dr. Carlos Oswaldo é de extremo valor para todo o expositor bíblico. Ele traz o estudo introdutório de cada livro da Bíblia, a Mensagem Central do Texto e Estrutura de cada perícope.

3- Stott, John. A mensagem de Efésios. São Paulo: ABU, 1991. Trata-se de uma das maiores obras traduzidas para o português que auxilia na compreensão do texto de Efésios.

Nelson Galvão


Notas

[1] Lutero, Martinho. Nascido Escravo. p. 51


Nelson é casado com Simone desde 1997 e eles têm um filho.

Atua como diretor pedagógico do ministério Pregue a Palavra, como coordenador dos grupos do Pregue a Palavra de Cuba e Moçambique e como professor de História da Igreja, da Escola de Pastores PIBA.

Ele é formado em História e Teologia, pós-graduado em Administração Escolar e mestre em Educação (PUC-SP). Atualmente cursa o programa de mestrado em Teologia do Novo Testamento, no Seminário Bíblico Palavra da Vida- Atibaia, SP.


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