Permanecendo na Linha das Escrituras e a Pregação

Atualizado: Abr 1

por André Oliveira |

Em meados de 1974 o equilibrista Philippe Petit se consagrou ao conseguir realizar uma travessia entre as Torres Gêmeas na cidade de New York. A façanha de se equilibrar em cima de um cabo de aço esticado com mais de 40 metros foi crucial para sobrevivência de Petit e ilustra muito bem aquela que é a principal tarefa do ministro de Deus, a de permanecer na linha das Escrituras, isto é, não subir a linha ‘ir além’ ou descer a linha ‘ficar aquém’ do que as Escrituras realmente dizem.


Falando francamente, a igreja contemporânea padece de ministros que tenham coragem, ousadia e compromisso no caminhar da linha da verdade bíblica. Nosso tempo está nitidamente marcado por pregadores habilidosos em discursar sobre Deus, porém, fundamentados na razão e experiência humana. Vanhoozer alerta para essa situação citando como exemplo o influente ateu do século XIX, Ludwig Feuerbach quando diz: “Deus foi o meu primeiro pensamento; a razão, o segundo; o meu terceiro e último pensamento, o homem. Para Feuerbach, a antropologia é o “segredo” da teologia” [1]. A semelhança com os muitos pregadores contemporâneos é inevitável.

Um Alerta: Não saia da linha!

Quando olhamos para os últimos dois séculos infelizmente nos deparamos com exemplos significativos de como pregadores saem da linha das Escrituras. De um lado, observamos “pastores” abraçarem a empreita de reinventar Deus e sua Palavra, verdadeiros modernistas que desejam revisionar as doutrinas fundamentais defendidas nas Escrituras. Essa empreita é consequência do liberalismo do século XX, cuja falácia do realismo científico seduziu uma boa parte dos pastores e teólogos fazendo-os assumirem uma posição abaixo da linha. No outro lado, lidamos com uma porcentagem crescente de pastores que anseiam crescimento quantitativo em suas igrejas e se tornam verdadeiros pragmáticos com seus métodos infalíveis de crescimento humanista e, por isso, acabam negociando verdades bíblicas ao assumirem uma posição acima da linha das Escrituras.


Hernandes nos alerta sobre esse fenômeno ao dizer:

“Muitos pastores, vivem no afã de buscar o crescimento de suas igrejas, e por isso, acabam abandonando o genuíno evangelho e se rendem ao pragmatismo prevalecente na cultura pós-moderna [...] pregam o que funciona e não a verdade da Palavra de Deus, pregam para agradar seus ouvintes e não para levá-los ao arrependimento, pregam não as Escrituras, mas as revelações de seus próprios corações” [2].

A tentativa de buscar relevância no mundo contemporâneo tem lançado diversos pastores para fora da linha. Desassociados da fidelidade textual, propõem, ainda que veladamente, o esvaziamento dos elementos sobrenaturais da Palavra de Deus, da pessoa de Cristo, seus milagres e ressurreição. Como resultado, o Cristo glorificado, salvador e reto juiz passa a ser explicado a luz da razão, deixa de ser o todo poderoso para ser um homem de boa conduta e moral ilibada que deve ser apenas apreciado.

Na prática, existe algo que é característico nesses ministros, a capacidade que eles têm de usarem a Bíblia fora de seu contexto para minar a suficiência e autoridade da Palavra de Deus. Inevitavelmente, quando não estão negando as verdades defendidas pela Escrituras, estão adicionando algo a ela por meio de estímulos a barganha, bençãos terrenas, vitórias constantes, isenção de sofrimento entre outras coisas mirabolantes.

Muitas possibilidades contribuem para a realidade do cenário atual, elas variam desde uma péssima formação teológica que não transmite instruções básicas de como manusear a Palavra de Deus, até a realidade de aspirantes ao ministério da Palavra que nunca foram de fato convertidos e vivem como profissionais da fé.


O desdobramento deste tempo sombrio que estamos vivendo é revelado pela ferrenha batalha na forma de como a Bíblia deve governar a igreja de Deus e como se deve fazer pregação. Bausells, lembra-nos que existe uma visão pós-moderna da realidade desafiando os absolutos da fé cristã basilares da pregação bíblica” [3]. Parafraseando, prática da pregação parece ser melhor quando o homem fabrica seu deus conforme sua própria imagem. Porém, não podemos deixar de destacar que o relativismo e o pluralismo propostos pelos liberais e o ativismo dos pragmáticos está diluindo as ênfases bíblicas sobre a santidade de Deus a fim de serem apresentados de modo mais amigável e atraente ao mundo contemporâneo.


Se a pregação na história da igreja focou a agonia da redenção como anunciada pelos profetas e apóstolos, em nossos dias, ela se torna em discursos cuidadosos para não trazer desconfortos a uma plateia morta. Portanto, poderíamos propor uma paráfrase da máxima sobre pregar com ações em detrimento da proclamação dizendo: “pregue, se necessário use a Bíblia”.


A linha das escrituras e a coragem para se fazer pregação!

R. C. Sproul afirmou que o selo da convicção de Lutero sobre pregação se fundamentou no fato de que “onde quer que o Evangelho fosse pregado em sua pureza, engendraria conflito e controvérsia” [4] Essa é uma verdade que parece não despertar mais a mente e o coração dos ministros contemporâneos. Se Sproul está correto, e é convicção deste autor que ele está, o resultado continuará sendo catastrófico e quem deveria influenciar o mundo como arauto de Cristo, acabará sendo influenciado. Um testemunho de Charles Swindoll nos alerta para esse fato:

A cultura moderna julga a qualidade dos líderes por sua habilidade em unir pessoas. Contudo, se aprendi alguma coisa nos meus anos de ministério pastoral, é que a verdade não une as pessoas, ela as divide. De fato, o modo mais fácil de unir as pessoas é esconder a verdade, dizer a elas o que querem ouvir [5].

Neste caso, vaticina Sproul ao dizer que a relativa proteção que desfrutamos contra ataques violentos pode na verdade indicar que temos comprometido o Evangelho de tal forma que não mais provocamos o conflito que a fé verdadeira engendra. Particularmente, não acredito que estejamos vivendo um amadurecimento da civilização moderna com relação à tolerância religiosa, mas um abandono do que realmente significa proclamar a Palavra de Deus.