O que fazer com as citações do Antigo Testamento no Novo Testamento?

Atualizado: 17 de Jul de 2019


por Nelson Galvão |


Ao ler o Novo Testamento (NT), você já deve ter se deparado com citações do Antigo Testamento (AT) feitas pelos autores do NT. Se você é um leitor atento das Escrituras, algumas citações parecem ser estranhas! Isso porque em alguns momentos os autores do NT parecem fazer citações fora do contexto do texto vetero-testamentário.


Diante disso, precisamos enfrentar a pergunta: os autores do NT interpretaram o AT em sintonia com o sentido geral do AT? Outros questionamentos se derivam deste: Em que medida a citação do AT foi feita de forma livre, mas manteve-se fiel à ideia do texto original? Alguns usos que o NT faz do AT não alteram o texto hebraico a fim de comprovar um cumprimento específico?


Existem inúmeras abordagens para tentar responder a estas perguntas. O estudioso G. K Beale[1] apresenta um levantamento dessas posições e apresentaremos resumidamente a seguir.


A primeira posição defende que os autores do NT foram influenciados significativamente pela interpretação judaica do AT. Esta posição é defendida principalmente por Earle E. Ellis, Richard Longnecker, Walter Dunnett [2], segundo a qual, Jesus e os autores do NT se utilizaram de métodos não contextuais para a interpretação do AT, sendo influenciados pela exegese rabínica do Midrash, Qunran, Talmude ou os Targumim.


De acordo com Longenecker:


"Esta escola tenta apresentar o uso do Novo Testamento sobre o Antigo como um reflexo do progresso da revelação em Jesus Cristo ("os óculos cristológicos" de escritores do Novo Testamento) e especialmente como fazer uso de métodos de interpretação judaica do primeiro século e exegese (conceitos como midrash, pesher e regras de Hillel de interpretação)"[3].


A segunda posição afirma que os autores do NT tiraram sua intepretação do AT de um suposto “Livro-testemunho”. Esta posição é defendida por J. R. Harris[4]. De acordo com Harris, o livro-testemunho tinha textos-prova que eram utilizados com razões apologéticas. Assim, os autores do NT teriam lançado mão dessas porções textuais e, por isso, desconsideraram o contexto literário.


Uma terceira posição é defendida por Petter Enns[5] que a denomina de “perspectiva cristotélica”. De acordo com esse estudioso, os autores do NT tinham um pressuposto de que todas as passagens vetero-testamentárias apontam para Cristo; ou seja, os autores do NT interpretavam o AT fora de seu contexto, “à luz da vinda de Cristo”[6]. Assim teriam visto Cristo em passagens que não têm qualquer relacionamento com o Messias.


A quarta posição é defendida por C. D.Stanley[7] que afirma que os autores do NT não estavam preocupados com o significado contextual de textos do AT. A preocupação principal dos autores do NT era retórica; ou seja, seu interesse era usar o texto como autoridade para persuadir os seus ouvintes.


A quinta posição é a abordagem pós-moderna. Segundo esta posição é impossível a leitores resgatar o significado do texto antigo. Isso porque os pressupostos do leitor o impediriam de efetuar tal empreendimento, restando a este apenas o trabalho de dar significância ao texto. O ponta pé inicial a essa posição foi dado por Gadamer que afirmou: “Compreender não significa primeiramente deduzir o caminho de alguém no passado, mas ter um envolvimento presente no que é dito”[8].


Estudos recentes


Em estudo recente, Abdala[9] sugere ainda outras abordagens conforme as veremos a seguir.


A primeira posição seria a proposta pelo próprio Beale (além de Bruce Waltke, Douglas Moo e Jared Compton), o que é conhecida como abordagem canônica. De acordo com essa abordagem, o significado de qualquer texto depende de sua relação com o todo da revelação. Os autores do NT teriam graus variados de consciência dos contextos literários e históricos do AT. Entretanto, “seria equivocado concluir que uma referência veterotestamentária foi interpretada fora de contexto [...] coloco-me ao lado dos que afirmam que o NT usa o AT em conformidade com o seu sentido contextual original”.[10]


Uma outra posição levantada por Abdala seria a da abordagem da única intenção autoral, conforme defendida por Walter Kaiser e Douglas Stuart. De acordo com esta posição, existe total identidade entre o sentido tencionado pelo Autor divino e o sentido tencionado pelo autor humano. O autor do AT estaria plenamente consciente do que Deus queria dizer com as palavras que usou e estaria plenamente consciente das implicações que tais palavras poderiam ter para os autores do NT.


A abordagem da aplicação inspirada do Sensus Plenior é defendida Robert. L. Thomas e John Walton. Ela se tornou popular na segunda metade do século XX nos círculos católicos e, em seguida, entre os protestantes. Segundo esta posição, existem duas formas distintas, porém aceitáveis, de ler o AT. A primeira delas é a interpretação histórico-gramatical, que possui regras objetivas e fixas na leitura bíblica. A segunda é a interpretação subjetiva feita pelos autores do NT, cuja autoridade residia na própria inspiração divina. “Se você tem inspiração, você não precisa da intepretação histórico-gramatical”[11].


Uma ultima abordagem a ser considerada é a Referentiae Plenior, segundo é defendida por Elliott Johnson, J. I. Packer, Roy B. Zuck, Norman Geisler e Carlos Oswaldo Pinto (no caso do Brasil). Esta abordagem defende um sentido único para o texto bíblico, mas contendo significâncias, ou referentes múltiplos. De acordo com Zuck:


"Nesta visão o sentido de uma passagem é textualmente determinado com um único significado, que inclui vários subsignificados ou implicações relacionados ao significado expresso pelo autor humano. O sentido expressado pelo autor no texto contém apenas um significado que inclui qualquer subsignificado não declarado, mas relacionado, um significado que é traço necessário daquele tipo de significado como um todo"[12].


Atos 2.17-21


Vejamos como exemplo da abordagem Referentiae Plenior a citação feita pelo apóstolo Pedro à profecia de Joel 2.28-31, conforme registrado por Lucas em Atos 2.17-21.


Será que Lucas, na qualidade de autor do livro de Atos, e Pedro, pregador do sermão registrado em At 2.16-21, estavam em sintonia com o sentido geral do AT, ao citar Joel 2.28-32?


Para responder a esta pergunta, em primeiro lugar, averiguaremos o sentido e significância de Joel 2.28-32, levando-se em consideração questões como: autoria, data, análise exegética, contexto histórico/literário, questões sintáticas, léxicas e literárias. Além disso, será levada em consideração questões de crítica textual através de comparação do texto Massorético, com a Septuaginta e o texto do NT. O passo seguinte será efetuar o mesmo processo com a passagem de At 2.16-21. Em seguida, efetuaremos a verificação da exegese judaica do texto de Joel 2.28-31 (Talmude, Quran, etc), a comparando com o uso de Lucas em Atos 2.


No final da análise espera-se ter condições de apontar para o sentido da citação de Joel 2 em At 2.16-21, como o autor do NT usa o AT, e se ele quer demonstrar um cumprimento ou uma expansão do referente original.


Contexto literário da passagem


Em termos de estrutura hermenêutica de Atos, pode-se notar que At 2.16-21 está inserida na primeira metade do livro, aquela primeira sessão que seria os doze primeiros capítulos, onde é focado o crescimento do evangelho dentro das fronteiras do mundo judaico.


Esta primeira sessão do livro de Atos tem três divisões que começam com o que Pinto chama de “O livro das doze testemunhas” (At 1.1-6.7). Esse “livro” é iniciado com o prólogo (At 1.1-5), em que Lucas menciona a sua primeira obra que trata do ministério de Jesus até a ascensão.


Em seguida, Lucas passa a relatar a partida do Senhor (At 1.6-11) em que este estabelece os apóstolos como testemunhas do Reino sob a influência e o poder do Espírito prometido, enquanto esperam o retorno do Messias.


Na sessão seguinte (1.12-26) observa-se a preparação dos discípulos para o cumprimento da promessa do Messias. Essa preparação consiste na reunião em oração e na complementação do número oficial das testemunhas da ressurreição.


Em seguida, acontece o Pentecostes, o Espírito manifesta Sua chegada visível e audivelmente às Doze Testemunhas (2.1-4). A ocasião dessa manifestação é a Festa das Semanas (Pentecostes).


Por ocasião da chegada do Espírito, o testemunho a respeito de Jesus, o Messias, é apresentado aos peregrinos em seus dialetos nativos, causando ao mesmo tempo surpresa e zombaria (2.5-13).


É nesse contexto que Pedro então profere o que seria a primeira mensagem cristã (At 2.14-41). Pinto observa basicamente duas sessões no sermão de Pedro. A primeira seria a seção da polêmica, em que Pedro argumenta que os fenômenos observados pelo povo não são resultado de pecado humano, mas da soberania divina em manifestar Seu Reino de acordo com as Escrituras (2.14-21).


A segunda sessão seria a da proclamação em que Pedro afirma que os fenômenos observados pelo povo são prova de que Jesus de Nazaré, rejeitado e crucificado pela nação, era de fato o Messias, que ressurgira dos mortos e concedera o Espírito prometido pelos profetas (2.22-36).


À proclamação de Pedro segue-se a reação dos ouvintes; ou seja, três mil pessoas são acrescentadas à comunidade do Reino (2.41).


Análise exegética de At 2.17-21


Considerações:


Nesta passagem, a citação de At 2 corresponde literalmente à tradução da LXX. Porém, Atos demonstra seis diferenças com a LXX:


1. No v. 28 a LXX usa μετὰ ταῦτα καὶ enquanto que Atos usa ἐν ταῖς ἐσχάταις ἡμέραις ( λέγει ὁ Θεὸς)

2. No v. 28 a LXX usa καὶ οἱ πρεσβύτεροι ὑμῶν ἐνύπνια ἐνυπνιασθήσονται καὶ οἱ νεανίσκοι ὑμῶν ὁράσεις ὄψονται enquanto que Atos usa καὶ οἱ νεανίσκοι ὑμῶν ὁράσεις ὄψονται, καὶ οἱ πρεσβύτεροι ὑμῶν ἐνύπνια ἐνυπνιασθήσονται.

3. No v. 18 Atos trás o καί γε, ao invés do meramente καί de Joel

4. No v. 18 Atos acrescenta καὶ προφητεύσουσι

5. No v. 19 Atos acrescenta ἄνω, κάτω e σημεῖα

6. No v. 20 Atos acrescenta as partículas e τὴν

7. No v. 21 Atos omite a expressão ὅτι ἐν τῷ ὄρει σιων καὶ ἐν ιερουσαλημ ἔσται ἀνασῳζόμενος καθότι εἶπεν κύριος καὶ εὐαγγελιζόμενοι οὓς κύριος προσκέκληται.


Pode-se notar que a redação de Lucas assemelha-se muito com a LXX. Entretanto, existem algumas poucas alterações que merecem atenção.


A primeira delas é a substituição da expressão “depois dessas coisas” (μετὰ ταῦτα) por “nos últimos dias” (ἐν ταῖς ἐσχάταις ἡμέραις). De acordo Beale e Carson é “provável que a intenção da mudança seja enfatizar que os acontecimentos do Pentecostes de fato pertencem à atividade de Deus nos últimos dias: uma era nova chegou”.[13]


Quanto à inserção por Lucas da expressão “diz Deus” (λέγει ὁ Θεὸς), parece ter a intenção de enfatizar o elemento profético da passagem.


Uma outra alteração importante seria a inversão das expressões do fim do v. 18. A LXX trás καὶ οἱ πρεσβύτεροι ὑμῶν ἐνύπνια ἐνυπνιασθήσονται καὶ οἱ νεανίσκοι ὑμῶν ὁράσεις ὄψονται, enquanto que Atos usa καὶ οἱ νεανίσκοι ὑμῶν ὁράσεις ὄψονται, καὶ οἱ πρεσβύτεροι ὑμῶν ἐνύπνια ἐνυπνιασθήσονται. Aqui Lucas trás os pronomes “meus/minhas” acompanhando “servos/servas”. A ideia é ressaltar o papel desses sujeitos não meramente como agentes sociais, mas como agentes do Reino. “O efeito é que os termos referentes a escravos literais em Joel são agora entendidos como a condição geral dos servos de Deus”[14].


No v. 19 de Atos, Lucas também acrescenta as preposições “para cima” (ἄνω) e “para baixo” (κάτω), além do substantivo “sinais” (σημεῖα). De acordo com Beale e Carson[15] essa alteração exemplifica a prática de Lucas e outros autores do NT de fazer pequenas alterações, com o propósito de ressaltar o significado do original, ou por motivos estilísticos, ou pela necessidade do novo contexto. Assim, a citação da profecia visa explicar o acontecimento à luz do cumprimento dela.


Uma ultima alteração a ser observada é a omissão que Lucas faz de Joel 2.32b: ὅτι ἐν τῷ ὄρει σιων καὶ ἐν ιερουσαλημ ἔσται ἀνασῳζόμενος καθότι εἶπεν κύριος καὶ εὐαγγελιζόμενοι οὓς κύριος προσκέκληται. Pedro tinha o propósito de comunicar a oferta de salvação a todo aquele que invocar o nome do Senhor, seja judeu ou gentio. Entretanto, parece que Joel tinha em mente apenas os judeus, excluindo os gentios. “Dessa forma, Lucas omite Joel 2.32b, que concentra a salvação em Jerusalém, embora cite as últimas poucas palavras em 2.39”. [16]


Diante da semelhança do texto de Atos com a LXX, bem como das escolhas conscientes de Lucas na citação do texto, parece razoável dizer que Lucas recebeu o relato de Pedro a cerca do seu discurso na ocasião do Pentecostes e tinha a LXX em mãos ao registrar o sermão. De acordo com Osborne, a LXX era a Bíblia do séc. I:


"Um grande número das citações do AT no NT tem origem na Septuaginta. Por exemplo, das oitenta citações encontradas em Mateus, trinta são da LXX. Todavia, a maioria ocorre em discurso direto de Jesus e de João Batista, dando a entender que Jesus usou a Septuaginta. O mesmo foco ocorre nas declarações feita em Atos"[17].


Exegese judaica do texto de Joel 2.28-32


Quando os judeus palestinos pensavam em tempo, estes consideravam a era presente e a era vindoura. Os intérpretes judeus entendiam a era vindoura, como o tempo do Messias. No Talmude Babilônio[18], o rabino Simlai citando Amós diz que o Dia do Senhor é de escuridão e não de luz. Em seguida afirma que este será o dia do Messias.


Na literatura pseudepígrafa encontra-se que a era vindoura será inaugura pelo dia do julgamento do Senhor: “os pecadores perecerão para sempre no dia do julgamento do Senhor, quando Deus inquirir a terra com o Seu julgamento. Mas os que temem o Senhor alcançarão misericórdia nele. E viverá pela compaixão do seu Deus”[19].


Na obra judaica, o rabino Bemidbar Rabba relaciona a era vindoura com o Messias e interessantemente diz: “O Deus santo e bendito diz que neste mundo profetizariam indivíduos isolados (isto é, não a comunidade inteira), mas, no mundo vindouro, todo o povo de Israel será de profetas, conforme é dito em Joel”[20].


Dessa forma, Pedro acompanha a interpretação rabínica de Joel 2.28-31, sendo que o faz aplicando a Cristo.


Significado e significância da citação.


Na sessão de At 1.12-26, Lucas relata a preparação dos discípulos para o cumprimento da promessa do Messias. Essa preparação consiste na reunião em oração e na complementação do número oficial das testemunhas da ressurreição.


Em seguida, acontece o Pentecostes, o Espírito manifesta Sua chegada visível e audivelmente às Doze Testemunhas (2.1-4). A ocasião dessa manifestação é a Festa das Semanas (Pentecostes).


Por ocasião da chegada do Espírito, o testemunho a respeito de Jesus, o Messias, é apresentado aos peregrinos em seus dialetos nativos, causando ao mesmo tempo surpresa e zombaria (2.5-13).


No início de seu sermão Pedro cita Joel 2.28-31. Porque Pedro faz essa citação? O que ele tinha em mente? Ele estava apontando para um cumprimento, estava fazendo uma analogia, ou demonstrando uma expansão do referente original? Esse questionamento é feito da seguinte forma por Carlos Oswaldo, em relação a Joel 2. 28-32: “Esta passagem foi totalmente cumprida em At 2 ou foi apenas ilustrada pelos eventos de Pentecostes?” [21]


Conforme indica G. K. Beale, os autores do NT utilizaram-se de diferentes formas o AT. Com isso, “se desde o início os estudantes estiverem cientes, de modo geral, das principais formas que os autores do NT interpretam o AT, terão melhores condições de delimitar o uso pretendido numa passagem específica em análise”[22]. Sendo assim, o autor oferece categorias de usos do AT pelos autores do NT que nos orientarão na análise de At 2.17-21. Essas categorias são: (1) Para indicar o cumprimento direto de uma profecia do Antigo Testamento; (2) Para mostrar o cumprimento indireto de uma profecia tipológica do AT; (3) Para indicar a afirmação de que uma profecia veterotestamentária ainda não cumprida se cumprirá infalivelmente no futuro; (4) Para indicar uso analógico ou ilustrativo do AT; (5) Para indicar o uso simbólico do AT; (6) Para indiciar a autoridade permanente que transita do AT para o NT; (7) Para indicar um uso proverbial do AT; (8) Para indicar uso retórico do AT; (9) Para indicar o uso de um segmento do AT como projeto ou protótipo de um segmento do NT; (10) Para indicar um uso textual alternativo do AT; (11) Para indicar uso assimilado do AT; (12) Para indicar um uso irônico ou contrário do AT.


Para Marshall[23], a vinda do Espírito Santo devia ser encarada como cumprimento da profecia de Joel. Dessa forma, a categoria “1” (para indicar o cumprimento direto de uma profecia do AT) se enquadraria nessa passagem.


Entretanto, Carlos Oswaldo sugere que a categoria “4” (para indicar o uso analógico ou ilustrativo) se refere melhor ao uso que Pedro faz de Joel. O autor argumenta que a “ausência total de eventos cataclísmicos em Pentecostes, apontam para um uso ilustrativo (alguns preferem a palavra “típico”) da profecia de Joel pelo apóstolo Pedro; Joel 2.28-32 encontra seu cumprimento total na segunda vinda do Senhor”[24].


Minha preferência é pela posição de Carlos Oswaldo. Existe duas partes claras na citação de Joel 2.28-32. A primeira parte (At 2.17,18) refere-se ao derramar do Espírito Santo. Isso aconteceria da seguinte forma: (1) Nos últimos dias; (2) A todos os povos; (3) Haveriam evidências claras (profecias, sonhos, visões) sobre grupos específicos de pessoas. Pedro então identifica o advento da vinda do Espírito Santo no Pentecostes com a Profecia de Joel. Esse fenômeno inauguraria o início dos “últimos dias”.


A segunda parte da citação de Joel (At 2.19,20) trata de sinais no céu, na terra, sangue, fogo, nuvens e fumaça, além de fenômenos cósmicos antes da vinda do Senhor. Esses fatos claramente não foram constatados no Pentecostes. Por isso, parece ter um outro referente.


Kistemaker parece entender que estes sinais foram plenamente cumpridos na morte de Cristo. Segundo o autor, Lucas “deixa de declarar que essa profecia foi cumprida na morte de Jesus na cruz quando as trevas tomaram conta da terra durante três horas (Mt 27.45). Nessa hora o sol não ficou mais visível e os sinais da natureza constituíam um testemunho eloqüente da morte de Cristo”[25].


Entretanto, parece que esta parte da citação de Pedro refere-se aos tempos do fim, em que o Senhor virá em Glória naquele dia (2Pe 3.1-13). Assim, Pedro conclama os seus ouvintes a perceber o que Deus tem feito na história mais recente através de Cristo (At 2.22), inaugurando os tempos do fim, e ao arrependimento para a Salvação (At 2. 21, 38-40). Ladd observa esta questão da seguinte forma:


"Pedro reinterpreta Joel, afirmando que a outorga do Espírito também pertence aos últimos dias. Assim fazendo, ele também reinterpreta o próprio significado dos últimos dias; ele separa os últimos dias do Dia do Senhor e os coloca no âmbito da História. Os últimos dias chegaram. Os últimos dias são os dias do Espirito, que agora foi outorgado. No sentido real da palavra, a era messiânica chegou, a salvação escatológica está presente. Contudo, o Dia do Senhor permanece como um evento futuro, no final do tempo, que ainda não chegou"[26].


Assim, os acontecimentos do Pentecostes, segundo Pedro, teriam um duplo referencial: indicariam a inauguração do Reino, mas também apontariam ilustrativamente para a segunda vinda do Senhor. Nas palavras de Williams, “ao citar toda a passagem de Joel, Pedro na verdade poderia estar movendo-se do Pentecostes para a Parousia, sugerindo que assim como o Espírito era um sinal do novo tempo, assim ele também era um penhor de sua consumação”[27].


*Nelson Galvão

Nelson é casado com Simone desde 1997 e eles têm um filho.

Atua como diretor pedagógico do ministério Pregue a Palavra, como coordenador dos grupos do Pregue a Palavra de Cuba e Moçambique e como professor de História da Igreja, da Escola de Pastores PIBA.

Ele é formado em História e Teologia, pós-graduado em Administração Escolar e mestre em Educação (PUC-SP). Atualmente cursa o programa de mestrado em Teologia do Novo Testamento, no Seminário Bíblico Palavra da Vida- Atibaia, SP.

#principioshermeneuticos



Referências


[1] G. K Beale. Manual do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. p. 21

[2] Darrell L. Bock. Evangelicals and the Use of the Old Testament in the New. p. 216

[3] Ibid, p. 216

[4] G. K Beale. Manual do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. p. 27

[5] Ibid, p. 29

[6] Enns, in Grant R. Osborne. A espiral Hermenêutica, uma abordagem à interpretação bíblica. p. 423

[7] G. K Beale. Manual do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. p. 30

[8] Gadamer, in Grant R. Osborne. A espiral Hermenêutica, uma abordagem à interpretação bíblica. p. 603

[9] Tiago Abdalla Teixeira Neto. A problemática hermenêutica: uma proposta de abordagem interpretativa para a compreensão do uso do AT pelo NT. Obra não publicada.

[10] G. K Beale. Manual do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. p. 34

[11] John Walton. In Tiago Abdalla Teixeira Neto. A problemática hermenêutica: uma proposta de abordagem interpretativa para a compreensão do uso do AT pelo NT.

[12] Op. cit. in Tiago Abdalla Teixeira Neto. A problemática hermenêutica: uma proposta de abordagem interpretativa para a compreensão do uso do AT pelo NT.

[13] G. K. Beale & D. A. Carson. Comentário do Uso do AT no NT. P. 669.

[14] Holtz, in G. K. Beale & D. A. Carson. Comentário do Uso do AT no NT. P. 669.

[15] G. K. Beale & D. A. Carson. Comentário do Uso do AT no NT. P. 669.

[16] Ibid, p. 671.

[17] Grant R. Osborne. A espiral Hermenêutica, uma abordagem à interpretação bíblica. p. 423

[18] Talmude Babilônico. p. 311

[19] Salmos de Salomão. p. 29 – Pseudepigrapha: An account of certain apocryphal sacred writings of the Jews and early Christians

[20] Secção 15, fol. 219, in R. N. Champlin. O Novo Testamento Intepretado versículo por versículo. v. 3. p. 54

[21] Carlos Oswaldo Pinto, Foco do Antigo Testamento. p. 708.

[22] G. K Beale. Manual do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. p. 34

[23] Howard Marshall. Atos. p. 73

[24] Carlos Oswaldo Pinto, Foco do Antigo Testamento. p. 709.

[25] Simon J. Kistemaker, Atos. Vol 1, p. 127

[26] George Eldon Ladd. Teologia do Novo Testamento. p. 325.

[27] David J. Williams. Novo Comentário Contemporâneo. Atos. p. 72.



Bibliografia


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BOCK, Darrell L. Evangelicals and the Use of the Old Testament in the New.

CALVINO, João. Comentário de Joel. p. 13

HUBBARD, David Allan. Joel e Amos : introdução e comentário. São Paulo : Vida Nova.

KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento – Exposição de Atos dos Apóstolos. Vol 1. Ed. Cultura Cristã. São Paulo:2003.

LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. Ed. Juerp. Rio de Janeiro: 1993.

MARSHALL, I. Howard. Atos. P. 46

NETO, Tiago Abdalla Teixeira. A problemática hermenêutica: uma proposta de abordagem interpretativa para a compreensão do uso do AT pelo NT (obra não publicada).

NICOLE, Roger, “New Testament Use of the Old Testament,” Carl F.H. Henry, ed., Revelation and the Bible. Contemporary Evangelical Thought. Grand Rapids: Baker, 1958 / London: The Tyndale Press, 1959. pp.137-151.

OSBORNDE, Grant R. A espiral Hermenêutica, uma abordagem à interpretação bíblica. Ed. Vida Nova. São Paulo: 2009.

PINTO, Carlos Oswaldo. Foco do Antigo Testamento. Ed. Hagnos. São Paulo: 2006.

___________________. Foco do Novo Testamento. Ed. Hagnos. São Paulo: 2006.

WILLIANS, David J. Novo comentário bíblico contemporâneo - Atos. São Paulo: Vida.

Salmos de Salomão. p. 29 – Pseudepigrapha: An account of certain apocryphal sacred writings of the Jews and early Christians

The Babylonian Talmud. Trad. Michael L. Rodkinson. Livro I, 1903. Tract Sabbath.

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