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O que fazer com as citações do Antigo Testamento no Novo Testamento?

Atualizado: 17 de jul. de 2019


por Nelson Galvão |


Ao ler o Novo Testamento (NT), você já deve ter se deparado com citações do Antigo Testamento (AT) feitas pelos autores do NT. Se você é um leitor atento das Escrituras, algumas citações parecem ser estranhas! Isso porque em alguns momentos os autores do NT parecem fazer citações fora do contexto do texto vetero-testamentário.


Diante disso, precisamos enfrentar a pergunta: os autores do NT interpretaram o AT em sintonia com o sentido geral do AT? Outros questionamentos se derivam deste: Em que medida a citação do AT foi feita de forma livre, mas manteve-se fiel à ideia do texto original? Alguns usos que o NT faz do AT não alteram o texto hebraico a fim de comprovar um cumprimento específico?


Existem inúmeras abordagens para tentar responder a estas perguntas. O estudioso G. K Beale[1] apresenta um levantamento dessas posições e apresentaremos resumidamente a seguir.


A primeira posição defende que os autores do NT foram influenciados significativamente pela interpretação judaica do AT. Esta posição é defendida principalmente por Earle E. Ellis, Richard Longnecker, Walter Dunnett [2], segundo a qual, Jesus e os autores do NT se utilizaram de métodos não contextuais para a interpretação do AT, sendo influenciados pela exegese rabínica do Midrash, Qunran, Talmude ou os Targumim.


De acordo com Longenecker:


"Esta escola tenta apresentar o uso do Novo Testamento sobre o Antigo como um reflexo do progresso da revelação em Jesus Cristo ("os óculos cristológicos" de escritores do Novo Testamento) e especialmente como fazer uso de métodos de interpretação judaica do primeiro século e exegese (conceitos como midrash, pesher e regras de Hillel de interpretação)"[3].


A segunda posição afirma que os autores do NT tiraram sua intepretação do AT de um suposto “Livro-testemunho”. Esta posição é defendida por J. R. Harris[4]. De acordo com Harris, o livro-testemunho tinha textos-prova que eram utilizados com razões apologéticas. Assim, os autores do NT teriam lançado mão dessas porções textuais e, por isso, desconsideraram o contexto literário.


Uma terceira posição é defendida por Petter Enns[5] que a denomina de “perspectiva cristotélica”. De acordo com esse estudioso, os autores do NT tinham um pressuposto de que todas as passagens vetero-testamentárias apontam para Cristo; ou seja, os autores do NT interpretavam o AT fora de seu contexto, “à luz da vinda de Cristo”[6]. Assim teriam visto Cristo em passagens que não têm qualquer relacionamento com o Messias.


A quarta posição é defendida por C. D.Stanley[7] que afirma que os autores do NT não estavam preocupados com o significado contextual de textos do AT. A preocupação principal dos autores do NT era retórica; ou seja, seu interesse era usar o texto como autoridade para persuadir os seus ouvintes.


A quinta posição é a abordagem pós-moderna. Segundo esta posição é impossível a leitores resgatar o significado do texto antigo. Isso porque os pressupostos do leitor o impediriam de efetuar tal empreendimento, restando a este apenas o trabalho de dar significância ao texto. O ponta pé inicial a essa posição foi dado por Gadamer que afirmou: “Compreender não significa primeiramente deduzir o caminho de alguém no passado, mas ter um envolvimento presente no que é dito”[8].


Estudos recentes


Em estudo recente, Abdala[9] sugere ainda outras abordagens conforme as veremos a seguir.


A primeira posição seria a proposta pelo próprio Beale (além de Bruce Waltke, Douglas Moo e Jared Compton), o que é conhecida como abordagem canônica. De acordo com essa abordagem, o significado de qualquer texto depende de sua relação com o todo da revelação. Os autores do NT teriam graus variados de consciência dos contextos literários e históricos do AT. Entretanto, “seria equivocado concluir que uma referência veterotestamentária foi interpretada fora de contexto [...] coloco-me ao lado dos que afirmam que o NT usa o AT em conformidade com o seu sentido contextual original”.[10]


Uma outra posição levantada por Abdala seria a da abordagem da única intenção autoral, conforme defendida por Walter Kaiser e Douglas Stuart. De acordo com esta posição, existe total identidade entre o sentido tencionado pelo Autor divino e o sentido tencionado pelo autor humano. O autor do AT estaria plenamente consciente do que Deus queria dizer com as palavras que usou e estaria plenamente consciente das implicações que tais palavras poderiam ter para os autores do NT.


A abordagem da aplicação inspirada do Sensus Plenior é defendida Robert. L. Thomas e John Walton. Ela se tornou popular na segunda metade do século XX nos círculos católicos e, em seguida, entre os protestantes. Segundo esta posição, existem duas formas distintas, porém aceitáveis, de ler o AT. A primeira delas é a interpretação histórico-gramatical, que possui regras objetivas e fixas na leitura bíblica. A segunda é a interpretação subjetiva feita pelos autores do NT, cuja autoridade residia na própria inspiração divina. “Se você tem inspiração, você não precisa da intepretação histórico-gramatical”[11].


Uma ultima abordagem a ser considerada é a Referentiae Plenior, segundo é defendida por Elliott Johnson, J. I. Packer, Roy B. Zuck, Norman Geisler e Carlos Oswaldo Pinto (no caso do Brasil). Esta abordagem defende um sentido único para o texto bíblico, mas contendo significâncias, ou referentes múltiplos. De acordo com Zuck:


"Nesta visão o sentido de uma passagem é textualmente determinado com um único significado, que inclui vários subsignificados ou implicações relacionados ao significado expresso pelo autor humano. O sentido expressado pelo autor no texto contém apenas um significado que inclui qualquer subsignificado não declarado, mas relacionado, um significado que é traço necessário daquele tipo de significado como um todo"[12].


Atos 2.17-21


Vejamos como exemplo da abordagem Referentiae Plenior a citação feita pelo apóstolo Pedro à profecia de Joel 2.28-31, conforme registrado por Lucas em Atos 2.17-21.