Cinco razões para pregar Tiago

por Gilson Mota |



Logo que assumi o ministério da Segunda Igreja Evangélica Batista de Araraquara, onde sou pastor já há 13 anos, me vi diante de uma igreja que necessitava saber mais sobre a prática do cristianismo no seu dia a dia. Dez anos depois da primeira exposição retornei ao livro para expô-lo novamente pelas seguintes razões: Primeiro, a pedido daqueles que ouviram da primeira vez e desejavam reestudar a Carta de Tiago. Segundo por notar que, após esse tempo, a igreja já tinha uma “cara” diferente em virtude dos membros novos que aderiram à membresia.


Tiago foi e é para mim um livro que me levou à uma compreensão muito clara sobre como fazer da vida cristã uma experiência prática. Tiago apresenta à igreja de seu tempo argumento que exige mudança de atitude pelas sentenças taxativas que impõe. Ele via uma igreja envolta em situações e dificuldades que exigiam uma atitude que refletissem a fé pregada na vida, no testemunho diário.


Pensando nisso esboço aqui algumas razões para pregar Tiago olhando para a igreja do seu tempo e pensando na igreja do nosso.


1 - A IGREJA EM MEIO AO SOFRIMENTO, QUE PRECISA APRENDER A PERSEVERANÇA E OBEDIÊNCIA À PALAVRA


Talvez um dos males do nosso tempo seja o fato de que desejamos todo o bem de Deus, mas, não queremos pagar o preço por seguí-lo. Tiago é taxativo ao dizer:“Meus irmãos, considerai motivo de grande alegria o fato de passardes por várias provações, sabendo que a prova da vossa fé produz perseverança; e a perseverança deve ter ação perfeita, para que sejais aperfeiçoados e completos, sem vos faltar coisa alguma.” Tg 1.2-4.


Esse encorajamento que Tiago faz aos crentes dispersos nem sempre é bem compreendido pela igreja do nosso tempo. De fato, não sabemos muito, no contexto brasileiro do século XXI, o que é sofrer pelo evangelho quando pensamos em perseguições. Vemos o que acontece mundo à fora mas não vivemos, entretanto, existem outras situações que nos tiram o ânimo de perseverar na caminhada cristã e, sem dúvidas, tal situação é para esse, seu sofrimento pessoal que lhe enfraquece a fé e desanima. James Moffatt (The General Epistles, pág. 9) chama a perseverança diante do sofrimento de "o poder para suportar a vida".


Pregar Tiago apresentando, logo de início, que a vida cristã nem sempre é completa tranquilidade vai de encontro à filosofia cristã do nosso tempo que ensina que ser “crente” é viver um mar de bênçãos e nenhuma provação. As muitas dificuldades na vida pessoal ou eclesiástica podem e devem ser vencidas com perseverança na vida com Deus.


Tiago conserva em seus escritos e, através dos tempos, nos mostra o que a igreja primitiva pensava no que diz respeito a sofrer por Cristo, pois, certamente aprenderam do próprio Cristo. E com eles corroboram outros apóstolos nos textos que seguem:


“Bem-aventurados sois, quando vos insultarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês". Mt 5.11-12;


Então concordaram com ele. E, chamando os apóstolos, aplicaram-lhes chicotadas e ordenaram que não falassem em nome de Jesus. Então os soltaram. E eles retiraram-se de diante do Sinédrio, alegres por terem sido julgados dignos de sofrer afronta por causa do nome de Jesus. E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de anunciar Jesus, o Cristo.” At 5.40-42;


“E não somente isso, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz perseverança, e a perseverança, a aprovação, e a aprovação, a esperança; e a esperança não causa decepção, visto que o amor de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado.” Rm 5.3-5;


“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos regenerou para uma viva esperança, segundo a sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança que não perece, não se contamina nem se altera, reservada nos céus para vós, que sois protegidos pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para se revelar no último tempo. Nisso exultais, ainda que agora sejais necessariamente afligidos por várias provações por um pouco de tempo, para que a comprovação da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo.” 1 Pe 3.1-7.


Parece inconcebível alegrar-se pelas provas, contudo, quem sustenta é Deus. A vida vivida em dependência plena do Senhor revela a busca por uma sabedoria que vem do alto. É o Senhor quem nos capacita a estarmos preparados para os reveses da vida pessoal e eclesiástica.


Quantas pessoas tem desistido de servir ao Senhor em sua igreja local por não suportar as provas que estão vivendo seja na sua vida pessoal ou junto à igreja? Quantas pessoas desistem da igreja por alguma decepção? Quantas pessoas esperaram por um tempo e desistiram diante das provas mais recentes?


O fim daqueles que não perseveram é a falta de aperfeiçoamento, o despreparo para novos desafios. Essa é a evidência de falta de dependência de Deus. Em Tg 1.25 lemos: “Entretanto, aquele que atenta bem para a lei perfeita, a lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas praticante zeloso, será abençoado no que fizer.”


É a perseverança em buscar conhecer e viver para Deus pela obediência à sua Palavra o nosso alimento, o que nos dá força para continuarmos.


No fim das contas, a glória que está reservada aos perseverantes não se pode ver nesse mundo: Em Tg 1.12 se diz: “Feliz é o homem que suporta a provação com perseverança, porque, depois de aprovado, receberá a coroa da vida que o Senhor prometeu aos que o amam.” O fim da perseverança é o prêmio que receberemos na eternidade.


Sofrimento, perseverança e obediência à Palavra de Deus são os segredos para chegar à grandiosa bênção final. Esse, se não for o maior, é um dos grandes motivos para se pregar Tiago.


2 - A IGREJA QUE PRECISA EXERCITAR A FÉ TORNANDO-A EVIDENTE


O capítulo 2 de Tiago traz ensinos que, ao longo dos séculos foram muito discutidos e alguns houveram que consideraram a carta imprópria para o cânon. Hoje, damos graças a Deus por tê-la. Não que seja tão fácil para muitos compreender esse texto, mas, esse é o desafio.


Pregar Tiago 2 ajuda-nos a olhar para a fé prática ou “fé na prática”, onde o outro (o próximo) é o objeto de exercício de nossa fé, não o exercício pelo exercício, mas, a forma de evidenciar a fé que muitas vezes é interiorizada, é a prática por amor, com a intenção de revelar Cristo.


Desde o início do segundo capítulo do livro, Tiago se preocupa em trabalhar a questão da fé no âmbito do relacionamento do crente com o próximo. Ele Já começa dizendo que aquele que afirma ter fé em nosso Senhor Jesus e discrimina, quem quer seja, não parece ter uma fé autêntica. A fé prática olha para o outro como Cristo olha, com amor. No Evangelho de Mateus vemos o testemunho acerca de Jesus nesses termos: “Enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos que lhe disseram: "Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não te prendes à aparência dos homens.” Mt 22.16


A fé em Cristo precisa ter os atos de Cristo como padrão em seu exercício, ou seja, quem age diferente de Cristo no exercício da fé está seguindo “padrões malignos” (Tg 2.4), com maus pensamentos, guiados por critérios muito ruins e, nisso se comete pecado (Tg 2.9) porque não se tem seguido o princípio do amor “ao próximo como a ti mesmo” (Tg 2.8).


Eu disse anteriormente que Tiago é taxativo em seus ensinos e, sim, Tiago é taxativo ao nos mostrar que a fé precisa ser evidenciada por meio de obras, daquilo que se faz no dia a dia: “Assim também a fé por si mesma é morta, se não tiver obras. Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me tua fé sem obras, e eu te mostrarei minha fé por meio de minhas obras.” Tg 2.17-18


Simon Kistemaker afirma que Tiago explica o lado “ativo” da fé[1], ou seja, quem afirma ter fé, precisa evidenciá-la em suas atitudes para com o próximo.


É óbvio que não posso dizer que isso é tudo o que Tiago tem a dizer sobre fé e obras, mas, é certo que ele enfatiza a fé evidente, visível e palpável.


Pregar sobre o lado ativo da fé ensinado por Tiago nos tira do comodismo da fé abstrata e interiorizada para a fé concreta e evidente, exteriorizada em nossas ações para com o próximo, na demonstração de amor que vem para fazer Cristo conhecido por meio de nós. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” João 13.35


3 - A IGREJA QUE PRECISA DA SABEDORIA DO ALTO PARA PRATICAR O AUTOCONTROLE


Se existe mais alguma razão para pregar Tiago, creio que o seu ensino à uma vida de autocontrole é um bom argumento para tal.


Nesse tempo de urgência e de feitos instantâneos, autocontrole e sabedoria no falar não parecem apetecer muito aos paladares espirituais dos crentes dessa era. Embora não creia que essa desastrosa característica faça parte apenas do nosso menu, haja visto que Tiago observa isso nos crentes do seu tempo também.


Enquanto pensamos que podemos falar o que bem quisermos, sem nos atentarmos para as consequências, Tiago vem colocando um freio nesse jeito de pensar, mostrando que, ao crente, isso não é devido.


Descrevendo a ausência do autocontrole, principalmente no que diz respeito ao falar. Tiago diz: “A língua também é um fogo; sim, como um mundo de maldade, ela é colocada entre os membros do nosso corpo, contamina todo o corpo e põe em chamas o curso da nossa existência, sendo por sua vez posta em chamas pelo inferno.” Tg 3.6


O comentarista do Diario Vivir, diz: “Tiago compara o dano que pode causar a língua com uma chama de fogo. A perversidade da língua tem sua origem no inferno mesmo. A língua indomada pode causar um terrível dano. Satanás usa a língua para dividir às pessoas e instigar enfrentamentos. As palavras ociosas e aborrecíveis são perigosas porque pulverizam rapidamente destruição e ninguém pode deter os resultados uma vez que se pronunciaram. Devemos tomar cuidado com o que dizemos, pensando que mais tarde poderemos nos desculpar, já que o dano permanece. Algumas palavras expressas com irritação podem destruir uma relação que necessitou anos para estabelecer-se. antes de falar, recorde que as palavras são como o fogo, que não lhes pode controlar nem se pode anular o prejuízo que podem causar.”[2]


Claro que, à luz do descontrole da língua, temos esse ensino como exemplo para se trabalhar muitas outras áreas da vida, e, como disse o próprio autor da carta: “Todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, esse homem é perfeito e capaz de refrear também seu corpo inteiro.” Tg 3.2


O bom ensino dessa epístola ajudará a congregação a compreender os danos da ausência do domínio próprio, da língua sem freios, e o dever de se ater ao louvor a Deus que deve proceder dessa fonte transformada que são os lábios do verdadeiro crente.


Mas, o que fazer, então? O próprio escritor nos ensina o que fazer quando nos diz que devemos buscar a sabedoria que vem do alto, pois, nela se encontram todas as qualidades requeridas para a boa prática do verdadeiro cristianismo, veja: “Quem entre vós é sábio e tem conhecimento? Mostre suas obras pelo seu bom procedimento, em humildade de sabedoria... pois ...a sabedoria que vem do alto é, em primeiro lugar, pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sem hipocrisia.” Tg 3.13,17


Estamos cheios de coisas a dizer, muitas delas com pouca ou nenhuma relevância para quem ouve, que pode provocar muito mais danos do que crescimento.


4 - A IGREJA QUE PRECISA LIDAR COM A FALIBILIDADE DOS PROJETOS HUMANOS E APRENDER A SUJEITAR-SE A DEUS


Eis aí uma razão muito boa para expôr Tiago. Se você não notou ainda, estou dando razões para pregar Tiago a partir dos temas mais abordados em seus capítulos. Estou trabalhando capítulo a capítulo, mas, creio que você já notou isso.


Tiago começa com um problema recorrente na igreja: a dificuldade nos relacionamentos. Ele nos ajuda a ver o quanto os projetos humanos, muitas vezes, não conseguem passar nem mesmo entre os seus semelhantes. Cada um guerreia para que seja feita a sua vontade e sua conclusão é uma: “nada tendes” e porque? O alvo é o próprio deleite e não a glória de Deus. Creio que o autor quer apontar para a vida que vive a vontade de Deus.


A guerra de egos que permeiam nossos relacionamentos são, na verdade, idolatria; sinais de um relacionamento de amizade com o mundo o que constitui inimizade com Deus. Reconhecer esse erro e submeter-se a Deus é o que deve nortear a vida do crente para que este saiba qual o seu lugar, digo, não o de juízes do irmão, como se diz: “Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de um irmão e o julga, fala mal da lei e a julga. Se julgas a lei, já não és cumpridor da lei, mas juiz. Há um só legislador e juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem és tu, que julgas o próximo?” Tg 4.11-12


Abandonar o mundo e voltar-se para Deus. Deixar a amizade com o mundo para voltar a ser amigo de Deus. Não é possível ao homem fazer tudo isso sem a graça maravilhosa de Deus em Cristo Jesus. Willian MacDonald no Comentário Básico do Novo Testamento afirma que em Tiago 4.7-10 existem: “Seis passos para o verdadeiro arrependimento que são: submissão a Deus; resistência ao Diabo; achegar-se a Deus; limpar as mãos (ações) e purificar o coração (motivos); profundo lamento pelo pecado; e se humilhar perante o Senhor.