Argumentos em Favor da Formação de Pastores na Igreja Local

Atualizado: 17 de Out de 2018


Quero argumentar em favor da igreja local assumir integralmente a responsabilidade pela formação pastoral. Para isto, apresento cinco argumentos simples: bíblico, histórico, prático, econômico e eclesiológico. Veremos que a Bíblia ensina e a história comprova a formação de pastores dentro do contexto da igreja local. Além de estarmos mais alinhados com as Escrituras, o modelo agrega uma série de vantagens práticas para toda a Igreja.


Enfatizo, porém, que não estou defendendo o fim dos seminários; afinal, eu próprio sou resultado deles e creio que representam um papel importante e perderíamos muito se fechassem suas portas. Tampouco considero a formação pastoral na igreja local como uma "pílula mágica" para curar todos os males da igreja. Defendo, apenas, que temos muito a ganhar promovendo modelos saudáveis de formação pastoral formal sob a responsabilidade de igrejas locais fiéis.


O Argumento Bíblico


O Novo Testamento traça a formação dos primeiros presbíteros[1] pelos Apóstolos bem como instruções para as futuras gerações de pastores. O que vemos nas Escrituras é o papel de formação pastoral sendo realizado por presbíteros mais experientes dentro do contexto da igreja local com ênfase em exemplo de vida:


“O que ouviste de mim, diante de muitas testemunhas, transmite a homens fiéis e aptos para também ensinarem a outros.” 2 Timóteo 2.2 (c.f. Fp 1.1; 4.9).


O processo envolve as seguintes etapas gerais:

  1. Identificação pelo(s) presbítero(s) atuante(s) de homens espiritualmente maduros que desejam ser presbíteros e que possuem os dons e habilidades necessárias (1 Tm 3.1-7; Tito 1.5-9).

  2. Ensino da sã doutrina de modo que possa ser reproduzida pelos aprendizes no ensino de outras pessoas (2 Tm 2.2).

  3. Progresso na prática do ministério pastoral debaixo da orientação de presbíteros mais experientes, enfocando pureza de vida e doutrina ao longo do processo (1 Tm 4.11-16; 1 Pd 5.1-4).

Podemos resumir o processo de formação pastoral da seguinte forma: Pastores formam pastores na vivência ministerial e eclesiástica.


O Argumento Histórico


Não havia seminários durante os primeiros 15 séculos da igreja cristã, e foi somente no século 16 em que tanto católicos quanto protestantes começaram a exigir estudos formais como pré-requisito para a ordenação.[2] As primeiras escolas formais desenvolvidas pela igreja eram para catecúmenos a fim de ensinar a sã doutrina para os novos convertidos; temos a escola de Alexandria sendo um exemplo famoso. Como então os pastores eram preparados ao longo dos primeiros séculos da igreja?


Aparentemente, o estudo de teologia não era formal. O ingresso no ministério para alguns como Agostinho e Ambrósio foi em si o despertar para estudos mais profundos e sistemáticos da teologia a fim de atender as demandas do ministério da Palavra e a responsabilidade pela sã doutrina.

Um trecho de uma carta do bispo Cipriano do terceiro século nos fornece uma janela rara para visualizarmos a formação pastoral na igreja antiga:


"Saibam, portanto, que ordenei Saturo como leitor, e Optato como confessor, ambos dos quais, estávamos preparando para fazer parte do clero, desde que confiamos a Saturo mais que uma vez a leitura na Páscoa, e mais tarde, como examinamos cuidadosamente aqueles que deveriam ser os leitores e os presbíteros de ensino, ordenamos Optato como leitor para servir entre aqueles que instruem catecúmenos, e temos examinado todas as qualidades que devem habitar naqueles que estão treinando para o clero."[3]

Aqui vemos o funcionamento de uma residência de formação pastoral, onde dois homens estão sendo preparados para o clero (para serem presbíteros). Responsabilidades menores, mas importantes na igreja foram entregues a eles (“leitor” e “confessor”) enquanto eram acompanhados pela liderança, que mantinha atenção às características necessárias para servirem como pastores. Esse modelo segue em linhas gerais o padrão estabelecido nas epístolas do Novo Testamento.


Mais tarde, outras formas de educação teológica surgirão (mais notavelmente as escolas monásticas da idade média), mas não com o propósito de formação de novos pastores.

O Argumento Prático


Por que médicos passam por uma residência, antes de se formarem? É na residência que o conhecimento teórico se aplica de forma prática, mas ainda debaixo da supervisão de médicos mais experientes. O peso da responsabilidade de vidas é compartilhado e aos poucos solto nas mãos dos novos médicos. Se o cuidado do corpo exige uma residência, quanto mais o cuidado da alma. O pastoreio é aplicar as verdades eternas da Palavra de Deus às vidas complexas de pessoas reais. Não tem outro lugar para fazer residência no pastoreio a não ser a igreja local. A formação pastoral no contexto da igreja local proporciona vivência ministerial de forma natural.


Essa inserção na igreja local produz uma união entre o conhecimento transmitido e as experiências do dia-a-dia. Quem vive a igreja não irá perder tempo com debates que trazem pouco ou nenhum proveito para a igreja. Por outro lado, pastores em treinamento mergulharão com ânimo no estudo de conhecimentos que têm relevância para a igreja local e a atendem em suas necessidades práticas e teológicas.


Formação pastoral na igreja local também tem o benefício adicional de ser replicável em qualquer contexto cultural, geográfico ou histórico. Seminários são um luxo de estruturas grandes e de governos permissíveis à sua existência. Entretanto, a formação pastoral na igreja local pode continuar em contextos de perseguição e também onde a igreja está apenas começando. Bons modelos de formação pastoral na igreja local podem promover excelência, mesmo nos contextos mais difíceis.


O Argumento Econômico


Em média, excelência na formação pastoral custará muito menos na igreja local do que numa instituição extra eclesiástica. Isto se deve principalmente à otimização de recursos já existentes.


O recurso mais caro para a formação pastoral é o recurso humano. Entretanto, se uma igreja já fornece o sustento dos seus pastores, parte do seu tempo pode ser investido na formação pastoral sem maiores investimentos financeiros – já que formação de novos líderes é parte fundamental do papel pastoral. Teólogos e mestres podem ser contratados para ministrar aulas individuais, o que sai muito mais em conta do que contratar professores de tempo integral.


O segundo recurso mais caro na formação pastoral são os prédios onde a formação irá acontecer. Já que a igreja local possui dependências adequadas para fins educacionais, não há necessidade de alugar ou edificar prédios custosos. O custo de manutenção das instalações também já faz parte do orçamento normal da igreja local.


É claro que nenhuma igreja local deve imaginar que pode embarcar num programa formal de formação pastoral sem investimento financeiro. Quando pensamos, porém, no retorno do investimento, veremos que conseguiremos formar mais pastores com melhor qualidade e atenção individual por um investimento menor se trouxermos a formação pastoral para dentro da igreja local.

O Argumento Eclesiológico


Dieumeme Noelliste afirmou que a educação teológica é uma “serva útil da economia de Deus”[4] (Handmaiden em Inglês conota a ideia de uma serva que atende as necessidades cotidianas de, normalmente, uma senhora). Idealmente este é o papel da educação teológica. Mas, o que acontece quando a mãe entrega a criação dos seus filhos à serva? Pois, “A mão que balança o berço é a mão que domina o mundo.”[5] Desta forma, quem realiza a formação da liderança de uma igreja, indiretamente lidera a igreja. Portanto, a liderança de fato da igreja local não são apenas aqueles que foram biblicamente estabelecidos como presbíteros e bispos, mas indiretamente, o corpo docente de pesquisadores, teólogos e mestres do seminário local.


Esta influência dos formadores sobre os pastores e igrejas locais não pode ser subestimada. O destino da Presbyterian Church USA, não pode ser compreendida adequadamente sem perceber movimentos em seminários como Union (Nova Iorque) e Princeton (Nova Jérsei) no final do século 19 e início do século 20. Denominações como os Batistas do Sul no EUA reconheceram a influência dos seus seminários num deslizar para o liberalismo teológico e evitaram o desastre, reformando os seus seminários a tempo. Outras denominações não tiveram as mesmas condições e hoje estão morrendo a morte lenta da descrença.


A liderança doutrinária da igreja são os presbíteros. A formação pastoral é responsabilidade dos presbíteros. Desligar este processo das qualificações bíblicas para o presbitério é entregar a responsabilidade da criação dos filhos para a serva.


É claro que bons seminários (especialmente quando dirigidos por denominações e associações de igrejas saudáveis) podem proporcionar caminhos institucionais que cumprem o mandato bíblico para a formação pastoral. Entretanto, melhor seria que igrejas locais saudáveis assumissem a responsabilidade pela formação dos seus futuros pastores.

Reflexões Finais: Isso pode funcionar na prática?


Tenho argumentado em favor de igrejas locais assumirem integralmente a formação de novos pastores, e demonstrado alguns benefícios que a iniciativa traz à igreja. Porém, muitas perguntas podem ainda persistir e é provável que uma delas seja: ‘Como igrejas locais pequenas podem assumir responsabilidade para uma formação formal de seus vocacionados?’


É exatamente por causa desse desafio prático que seminários têm sido necessários ao longo dos últimos séculos. Como mencionei acima, não estou dizendo que seminários devem fechar as portas ou não colaborar mais para a formação pastoral. Na medida que seminários são instituições dedicadas à promoção de profundo estudo bíblico, reflexão teológica, e treinamento prático para diversos setores de serviço cristão, têm um papel importante no Corpo de Cristo.