A salvação dos 'pequeninos': os bebês que morrem vão para o céu?



por R. Albert Mohler, Jr. e Daniel L. Akin


A morte de um bebê ou criança pequena é profundamente comovente – talvez a maior dor que um pai é chamado a suportar. Para os pais cristãos, existe a certeza de que nosso Deus soberano e misericordioso está no controle, mas também há uma pergunta insistente: nosso bebê está no céu?


Esta é uma pergunta natural e inevitável, que exige nosso estudo bíblico e reflexão teológica mais cuidadosos e fiéis. A angústia indescritível do coração de um pai exige nossa pesquisa honesta e humilde das Escrituras.


Alguns são rápidos em responder a essa pergunta por sentimentalismo. É claro que as crianças vão para o céu, eles argumentam, pois como Deus poderia recusar um precioso pequenino? O Universalista tem uma resposta rápida, pois acredita que todos irão para o céu. Algumas pessoas podem simplesmente sugerir que os bebês eleitos vão para o céu, enquanto os não eleitos não vão e devem sofrer punição sem fim. Cada uma dessas respostas fáceis é insatisfatória.


O mero sentimentalismo ignora o ensino da Bíblia que trata do assunto. Não temos o direito de estabelecer doutrina com base no que esperamos que seja verdade. Devemos tirar nossas respostas do que a Bíblia revela ser verdade.


O universalismo é uma heresia antibíblica. A Bíblia ensina claramente que nascemos em pecado e que Deus não tolera pecadores. Deus fez uma provisão absoluta e definitiva para nossa salvação através da expiação substitutiva realizada por Jesus Cristo nosso Senhor. A salvação vem para aqueles que crêem em Seu nome e o confessam como Salvador. A Bíblia ensina um destino duplo para a raça humana. Os redimidos – aqueles que estão em Cristo – serão ressuscitados para a vida eterna com o Pai Celestial. Aqueles que não creram em Cristo e O confessaram como Senhor sofrerão o castigo eterno no fogo do Inferno. O universalismo é um ensino perigoso e antibíblico. Oferece uma falsa promessa e nega o Evangelho.


A Bíblia revela que nascemos marcados pelo pecado original e, portanto, não podemos afirmar que as crianças nascem em estado de inocência. Qualquer resposta bíblica à questão da salvação infantil deve partir do entendimento de que as crianças nascem com uma natureza pecaminosa.


A mudança do foco para a eleição, na verdade, evita responder à pergunta. Devemos fazer melhor e examinar mais de perto as questões em jogo.


Ao longo dos séculos, a igreja ofereceu várias respostas diferentes a essa pergunta. Na igreja primitiva, Ambrósio acreditava que as crianças batizadas iam para o céu, enquanto as crianças não batizadas não, embora recebessem imunidade das dores do inferno. Seu primeiro erro foi crer no batismo infantil e, portanto, na regeneração batismal. O batismo não salva e é reservado para os crentes – não para as crianças. Seu segundo erro foi sua indulgência na especulação. As Escrituras não ensinam uma posição intermediária que nega a admissão de crianças no céu, mas as salva do perigo do inferno. Agostinho, o grande teólogo do século IV, basicamente concordava com Ambrósio e compartilhava sua compreensão do batismo infantil.


Outros ensinaram que os bebês terão a oportunidade de vir a Cristo após a morte. Esta posição foi mantida por Gregório de Nissa e está crescendo entre muitos teólogos contemporâneos que afirmam que todos, independentemente da idade, terão uma oportunidade post-mortem de confessar Cristo como Salvador. O problema com esta posição é que as Escrituras não ensinam tal oportunidade post-mortem. Ela é uma invenção da imaginação de um teólogo e deve ser rejeitada.


Aqueles que dividem as crianças em eleitos e não eleitos procuram afirmar a doutrina clara e inegável da eleição divina. A Bíblia ensina que Deus elege pessoas para a salvação desde a eternidade e que nossa salvação é toda pela graça. À primeira vista, essa posição parece inexpugnável em relação à questão da salvação infantil – uma simples afirmação do óbvio. Um segundo olhar, no entanto, revela uma evasão significativa. E se todos os que morrem na infância estão entre os eleitos? Temos uma base bíblica para acreditar que todas as pessoas que morrem na infância estão entre os eleitos?


Acreditamos que as Escrituras realmente ensinam que todas as pessoas que morrem na infância estão entre os eleitos. Isso não deve ser baseado apenas em nossa esperança de que seja verdade, mas em uma leitura cuidadosa da Bíblia. Começamos com as afirmações bíblicas que já observamos. Primeiro, a Bíblia revela que somos "gerados em iniqüidade" [1] e, portanto, carregamos a mancha do pecado original desde o momento de nossa concepção. Assim, enfrentamos diretamente o problema do pecado. Segundo, reconhecemos que Deus é absolutamente soberano na salvação. Nós não merecemos a salvação, não podemos fazer nada para ganhar a nossa salvação e assim é tudo pela graça. Além disso, entendemos que nossa salvação é estabelecida pela eleição de pecadores por Deus para a salvação por meio de Cristo. Terceiro, afirmamos que as Escrituras ensinam que Jesus Cristo é o único e suficiente Salvador e que a salvação vem somente com base em Sua expiação de sangue. Quarto, afirmamos que a Bíblia ensina um duplo destino eterno – os redimidos para o céu, os não redimidos para o inferno.


Qual é, então, nossa base para afirmar que todos aqueles que morrem na infância estão entre os eleitos? Primeiro, a Bíblia ensina que devemos ser julgados com base em nossos atos cometidos “no corpo” [2]. Ou seja, enfrentaremos o tribunal de Cristo e seremos julgados, não com base no pecado original, mas por nossos pecados cometidos durante nossas próprias vidas. Cada um responderá “segundo o que fez” [3] e não pelo pecado de Adão. A imputação do pecado e da culpa de Adão explica nossa incapacidade de responder a Deus sem regeneração, mas a Bíblia não ensina que responderemos pelo pecado de Adão. Nós responderemos por nós mesmos. Mas e os bebês? Aqueles que morrem na infância cometeram tais pecados no corpo? Acreditamos que não.


Um texto bíblico é particularmente útil neste ponto. Depois que os filhos de Israel se rebelaram contra Deus no deserto, Deus sentenciou aquela geração a morrer no deserto após quarenta anos de peregrinação. “Nenhum destes homens, desta geração má, verá a boa terra que jurei dar a seus pais” [4]. Mas isso não era tudo. Deus isentou especificamente crianças e bebês desta sentença e até mesmo explicou por que Ele fez isso: “Além disso, seus pequeninos, que vocês disseram que seriam presas, e seus filhos, que hoje não têm conhecimento do bem e do mal, entrarão lá, e eu darei a eles e eles a possuirão” [5]. A questão chave aqui é que Deus especificamente isentou do julgamento aqueles que “não têm conhecimento do bem ou do mal” por causa de sua idade. Esses "pequeninos" herdariam a Terra Prometida e não seriam julgados com base nos pecados de seus pais.


Acreditamos que esta passagem se relaciona diretamente com a questão da salvação infantil e que a obra consumada de Cristo removeu a mancha do pecado original daqueles que morrem na infância. Não conhecendo nem o bem nem o mal, essas crianças são incapazes de cometer pecados no corpo – ainda não são agentes morais – e morrem seguras na graça de nosso Senhor Jesus Cristo.


John Newton, o grande ministro que escreveu o hino Amazing Grace estava certo dessa verdade. Ele escreveu a amigos íntimos que perderam um filho pequeno: "Espero que vocês dois estejam bem reconciliados com a morte de seu filho. Não posso lamentar a morte de bebês. De quantas tempestades eles escapam! Nem posso duvidar, em meu julgamento particular, que eles estão incluídos na eleição da graça” [6]. Os grandes teólogos de Princeton Charles Hodge e B. B. Warfield mantiveram a mesma posição.


Uma das expressões mais eloquentes e poderosas dessa compreensão da salvação infantil veio do coração de Charles Spurgeon. Pregando para sua própria congregação, Spurgeon consolou os pais aflitos: “Agora, que cada mãe e pai aqui presentes saibam com certeza que está tudo bem com a criança, se Deus a tirou de você em seus dias de infância" [7]. Spurgeon transformou essa convicção em um chamado evangelístico. “Muitos de vocês são pais que têm filhos no céu. Não é desejável que você também vá para lá?” Ele continuou: “Mãe, mãe não convertida, das ameias* do céu seu filho te chama para o Paraíso. Pai, pai ímpio e impenitente, os olhinhos que outrora olhavam alegremente para você, olham para você agora, e os lábios que mal aprenderam a chamá-lo de pai, antes de serem selados pelo silêncio da morte, podem ser ouvidos como com uma voz mansa e delicada, dizendo a você esta manhã: "Pai, devemos ser divididos para sempre pelo grande abismo que nenhum homem pode passar? A própria natureza não coloca em sua alma uma espécie de desejo de que você possa ser amarrado no pacote da vida com seus próprios filhos?”.


Jesus instruiu seus discípulos que eles deveriam “Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, porque o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas". Acreditamos que nosso Senhor recebeu graciosa e gratuitamente todos aqueles que morrem na infância – não com base em sua inocência ou dignidade – mas por sua graça, feita neles através da expiação que Ele pagou na cruz.


Quando olhamos para o túmulo de um desses pequeninos, não depositamos nossa esperança e confiança nas falsas promessas de uma teologia antibíblica, na instabilidade do sentimentalismo, na análise fria da lógica humana, nem no refúgio covarde de ambiguidade.


Colocamos nossa fé em Cristo e confiamos que Ele será fiel à sua Palavra. Reivindicamos as promessas das Escrituras e a certeza da graça de nosso Senhor. Sabemos que o céu estará cheio daqueles que nunca atingiram a maturidade na terra, mas no céu nos saudarão completos em Cristo. Vamos confiar pela graça encontrá-los lá.

 

Notas finais:


1. Salmos 51:5. Todas as citações bíblicas são da New American Standard Bible.

2. 2 Coríntios 5:10

3. Ibid.

4. Deuteronômio 1:35

5. Deuteronômio 1:39

6. John Newton, "Carta IX", The Works of John Newton (Londres, 1820), p. 182.

7. Charles H. Spurgeon, "Infant Salvation" Um sermão pregado em 29 de setembro de 1861. Metropolitan Tabernacle Pulpit (Londres, 1861), p. 505.

8. Marcos 10:14

 

R. Albert Mohler, Jr. é Presidente e Professor de Teologia Cristã no Southern Baptist Theological Seminary.

Daniel L. Akin é Vice-Presidente de Administração Acadêmica, Deão da Escola de Teologia e Professor Auxiliar de Teologia Cristã no Southern Baptist Theological Seminary.


Texto original: The Salvation of the 'Little Ones': Do Infants who Die Go to Heaven?

Disponível em https://albertmohler.com/2009/07/16/the-salvation-of-the-little-ones-do-infants-who-die-go-to-heaven


Tradução: Tiago Silva

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