A Pregação Expositiva no tempo da Reforma Protestante

Atualizado: 17 de Jul de 2019

por Marc Clauson |

Este é o primeiro e talvez o último post em uma “série” que gira em torno da Reforma e suas implicações para pregar a Palavra de Deus. Espero que seja um encorajamento. E, talvez, eu seja convidado a fazer outro. Como a maioria sabe (se não todos!), este ano marca o 500º aniversário da afixação das 95 Teses de Martinho Lutero na porta da igreja do castelo em Wittenberg, Saxônia, em 31 de outubro de 1517. Esta é uma ocasião importante para os protestantes. Mas acho que seria útil entender primeiro o que exatamente aconteceu há 500 anos e o patrimônio que nos é confiado para ser transmitido em nosso ensino e pregação.


Quando a fé cristã começou e o Novo Testamento foi escrito, poderíamos ter acreditado que a trajetória de sua compreensão conduziria perfeitamente sem problemas a uma teologia e pregação "reformada". Infelizmente, não aconteceu assim, embora Deus certamente tenha levantado homens que ajudaram a preservar as doutrinasreformadas em um ou outro grau. Agostinho (350-430) foi um destes homens. Apesar de não ter acertado em tudo em hipótese alguma, ele obteve a essência: a pecaminosidade do homem, a necessidade da graça, a obra de Deus em toda a nossa salvação desde o seu início até o fim. Este núcleo da verdade bíblica foi distorcido entre 450 e a Reforma. O que era essencialmente uma doutrina da "graça única” foi gradualmente transformado em uma doutrina sinérgica da salvação: o homem e Deus, de alguma forma cooperando no contexto dos sacramentos, e uma espécie de esforço humano.


Ao final da Idade Média, a “nova” visão foi encapsulada nestas palavras: “Para aquele que faz o que está dentro de si mesmo, Deus não negará a graça”. Isto parece estranho, assim como nosso ditado: “Deus ajuda aqueles que ajudam a si mesmos.” E é estranho. Mas é realmente mais insidioso. Dizia-se que o homem não havia nascido numa condição tão mal quanto pensamos - ele não é “totalmente depravado” ou “totalmente incapaz". Em vez disso, sua própria natureza manteve algum grau de habilidade para argumentar e querer, sem a ação da graça. Então, se uma pessoa exercesse esse “vestígio” de “bondade”, então Deus, em sentido contratual, deve-lheSua graça. Perversamente, no entanto, nunca se sabia o quanto do “fazer” era suficiente.


Foi esta visão de salvação que Lutero ouviu e leu (e rejeitou!). Ele não fez sua releitura de Romanos de um dia para o outro. Mas, quando a fez, a mudança foi definita. Por volta de 1516, a história avança. Lutero estava estudando Romanos 1 e parou nos versículos 16-17. Eis aqui como ele conta tudo:


“Enquanto isso, eu já havia voltado para interpretar novamente o Saltério durante aquele ano. Eu tinha confiança no fato de que eu estava mais hábil, depois de ter lecionado na universidade nas Epístolas de São Paulo aos Romanos, aos Gálatas e aos Hebreus. Eu tinha certamente sido cativado com um extraordinário ardor por entender Paulo na Epístola aos Romanos. Mas até então não havia sangue frio no coração, mas uma única palavra no Capítulo 1: “Nisto, a justiça de Deus é revelada”, que tinha ficado no meu caminho. Pois eu odiava aquela palavra “justiça de Deus”, que, de acordo com o uso e o costume de todos os professores, eu havia sido ensinado a compreender filosoficamente acerca da justiça formal ou ativa, como eles a chamam, com a qual Deus é justo e castiga o pecador injusto. Embora eu vivesse como um monge irrepreensível, senti que era um pecador diante de Deus com uma consciência extremamente perturbada. Eu não podia acreditar que ele fosse apaziguado por minha satisfação. Eu não amava, sim, eu odiava o justo Deus que pune pecadores e, secretamente, se não blasfemamente, certamente murmurando grandemente, eu estava irado com Deus e disse: “Como se, de fato, não bastasse que os pecadores miseráveis, eternamente perdidos pelo pecado original, fossem esmagados por todo tipo de calamidades pela lei do decálogo, sem que Deus adicionasse dor à dor pelo evangelho, também pelo evangelho ameaça-nos com a sua justiça e ira!” Então eu me irei com uma consciência feroz e perturbada. No entanto, vim implacavelmente sobre Paulo naquele lugar, desejando ardentemente saber o que São Paulo queria. Por fim, pela misericórdia de Deus, meditando dia e noite, prestei atenção ao contexto das palavras, a saber: “Nele, a justiça de Deus é revelada, como está escrito: “Aquele que por meio da fé é justo viverá.’”


Lá eu comecei a entender que a justiça de Deus é aquela pela qual o justo vive por um dom de Deus, isto é, pela fé. E este é o significado: a justiça de Deus é revelada pelo evangelho, ou seja, a justiça passiva com a qual o Deus misericordioso nos justifica pela fé, como está escrito: “Aquele que, pela fé é justo, viverá”. Aqui senti que havia nascido de novo e entrava no próprio paraíso através de portões abertos. Lá, um outro rosto totalmente novo de toda a Escritura se mostrou para mim. Então eu corri pela Escritura de memória. Também encontrei, em outros termos, uma analogia, como a obra de Deus, que é o que Deus faz em nós, o poder de Deus, com o qualEle nos faz sábios, a força de Deus, a salvação de Deus, a glória de Deus. E eu exaltei minha mais doce palavra com um amor tão grande quanto o ódio com o qual eu tinha antes odiado a palavra “justiça de Deus”. Assim, esse lugar em Paulo foi para mim, verdadeiramente, o portão do paraíso. Mais tarde, eu li “O Espírito e a Carta” de Agostinho, onde, contrariamente à esperança, achei que ele também interpretara a justiça de Deus de modo semelhante, como a justiça com que Deus nos reveste quando Ele nos justifica (passagem de Agostinho incluída abaixo). Embora isso tenha sido dito, até agora, de forma imperfeita e ele não explicou claramente todas as questões relativas à imputação, foi mesmo assim agradável que a justiça de Deus com a qual se justifica tenha sido ensinada”. (Das Obras de Lutero, volume 34. Concordia Publishing, 336-337).


Peço desculpas pela citação muito longa, mas ela é perspicaz. Se alguém pudesse ter reivindicado a fidelidade à Igreja Católica Romana, este seria Lutero, assim como Paulo à tradição farisaica. Mas o Espírito e a Palavra o mudaram para sempre. E a cristandade foi também mudada. Lutero pregou esta doutrina da fé somente, da graça somente, da Escritura somente, de Cristo somente e da glória de Deus somente de modo fiel pelos próximos 30 anos, apesar de próximo à morte em várias ocasiões, enquanto os governantes seculares e o santo imperador romano desejavam capturá-lo e executá-lo. Os papas também eram, para dizer o mínimo, não muito afeiçoados a Lutero, embora não pudessem fazer nada senão excomungá-lo - o que ocorreu em 1520. Lutero escreveu de forma prolífica (54 volumes traduzidos) para ajudar a promover a Reforma. Ele falou, ensinou e pregou consistentemente ao longo de sua carreira. Ele morreu ainda avançando o movimento.


Nenhum dos reformadores teve vida fácil. Zwinglio, João Calvino, os puritanos ingleses e outros sofreram vários graus de marginalização e ameaças a suas vidas. No entanto, eles perseveraram, apesar da oposição. Nós os conhecemos quase como santos, mas precisamos saber que eles eram homens como nós. Eles estavam dispostos a fazer o que Deus os chamou para fazer, apesar de suas próprias dúvidas e imperfeições. Deus os usou apesar destas mesmas características. Não foi sua bondade inata, mas sua fidelidade, após terem sido atraídos a Cristo, que fazia a diferença. Sim, Lutero, Calvino, muitos puritanos foram bem dotados intelectualmente.


Mas, no fim, não era por suas habilidades naturais que devemos deles nos lembrar, mas pela maneira como Deus os escolheu e usou para Sua glória e Reino.

A aplicação para quem prega e ensina é simples. Você não foi escolhido exclusivamente por causa de seus talentos naturais. Você foi escolhido, em primeiro lugar, porque Deus quis usá-lo para o Seu Reino. Seu trabalho, então, é ser fiel a este chamado. Pregamos a “loucura da cruz”, não a sabedoria do homem, apesar da tentação pela última. Lutero fez isso. Calvin fez isso. Os puritanos fizeram isso. Muitos pastores e professores protestantes fiéis o têm feito. A maioria tem trabalhado na obscuridade. Mas nenhum será esquecido por Deus.


Marc Clauson

Dr. Marc Clauson é profesor de História e Direito na Cedarville University nos EUA

Ph.D. em História, University of the Orange Free State, RSA; J.D., West Virginia University College of Law; Th.M., Liberty University; M.A., em História da Igreja, Liberty University; M.A. em Ciência Política, Marshall University; B.S. em Física, Marshall University













Tradução: Marcos Vinícius (Montanha)


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