A pregação de John Bunyan ao coração

Atualizado: 17 de Jul de 2019

por Joel R. Beeke & Mark Jones |

Fonte: Wikipedia. Bunyan na prisão, conforme imaginado em 1881.

Ver um príncipe rogar a um mendigo que aceitasse uma esmola seria uma cena estranha; ver um rei rogar a um traidor que aceitasse clemência seria uma cena ainda mais estranha; mas ver Deus rogar a um pecador que ouça Cristo dizer “Estou à porta e bato”, com um coração e um céu repletos de graça para outorgar àquele que abrir – essa é uma cena que assombra os olhos dos anjos. John Bunyan.


Atualmente estamos testemunhando a erosão da pregação bíblica em uma escala sem precedentes. Em sua biografia definitiva sobre o grande evangelista George Whitefield (1714-1770), Arnold Dallimore conclamou pregadores bíblicos a que sejam:


Homens poderosos nas Escrituras, com a vida dominada pela percepção da grandeza, da majestade e da santidade de Deus e com a mente e o coração brilhando com as grandes verdades das doutrinas da graça [...] homens que estejam dispostos a ser tolos por amor a Cristo, que suportem a censura e a falsidade, que arduamente trabalhem e sofram e cujo desejo supremo não seja conquistar o reconhecimento terreno, mas conquistar a aprovação do Mestre quando se apresentarem perante seu imponente tribunal. Serão homens que pregam com o coração quebrantado e os olhos cheios de lágrimas.


Onde estão os pastores que desceram do Monte Sião, conquistados pela graça soberana? Quando olhamos para o cenário ao redor, parece que a igreja está tropeçando porque o púlpito vai esfriando.

Contudo, há esperança até numa época assim. Enquanto, de um lado, as próprias Escrituras apresentam os pré-requisitos para o ministério do Evangelho, de outro, um levantamento da história da pregação nos mostra que o Senhor nunca abandonou seu rebanho. Em cada geração ele tem levantado homens que atacaram as portas do inferno com a simplicidade da sabedoria do céu. Para nós, o passado se torna um farol de esperança em que encontramos alento para nossa própria época. Entre grandes pregadores puritanos, John Bunyan (1628-1688) está entre os mais destacados, pois tinha a capacidade dada por Deus de envolver com suas mensagens não apenas a mente, mas também o coração. Voltemos nossa atenção para Bunyan como pregador – especialmente como pregador ao coração.


Bunyan, o pregador


Certa vez, Carlos II perguntou a John Owen (1616-1683), “o príncipe dos puritanos”, porque ia ouvir a pregação de John Bunyan, o iletrado latoeiro de Bedford. Owen, respondeu: “Majestade, se eu tivesse as habilidades do latoeiro para pregar, voluntariamente abandonaria todo meu estudo”.


Em 1655, a pedido de vários irmãos de sua igreja local, Bunyan, então com 27 anos de idade, começou a pregar em várias igrejas de Bedford enquanto ainda estava afligido profundamente com dúvidas sobre sua própria condição eterna. Acerca daquelas primeiras pregações ele escreve: “Os pavores da lei e a culpa de minhas transgressões eram um peso enorme em minha consciência. Eu pregava o que sentia, o que sentia dolorosamente, até mesmo aquilo que levava minha pobre alma a gemer e a tremer assustada [...] Eu próprio fui em cadeias para pregar a eles em cadeias e levava em minha consciência aquele fogo do qual eu os persuadia a se guardassem”.


Centenas de pessoas vinham ouvir Bunyan, o que o deixava de fato surpreso. Ola Winslow escreve: “No início não acreditando que Deus falaria por meio dele ‘ao coração de qualquer pessoa’, ele logo concluiu que isso podia estar acontecendo, e seu êxito restaurou sua confiança”. Anne Arnott afirma que Bunyan “era um pecador salvo pela graça, que pregava a outros pecadores com base em sua própria experiência sombria. “Tenho sido como alguém enviado a eles dentre os mortos’, ele afirmou. ‘Eu não havia pregado por muito tempo e logo alguns começaram a ser tocados pela Palavra e a ser imensamente afligidos na mente ao compreenderem a extensão de seu pecado e a necessidade que tinham de Jesus Cristo”.


Num prazo de dois anos, Bunyan começou a pregar menos sobre o pecado e muito mais sobre Cristo. Conforme Gordon Wakefield expressou, ele ressaltava Cristo


em seus “ofícios”, isto é, em todas as diferentes atividades que pôde fazer pela alma humana e pelo mundo; [destacava] Cristo como a alternativa salvadora para as falsas seguranças de ganhar e gastar ou das filosofias do egocentrismo ímpio. E, como consequência disso, ‘Deus me conduziu a alguma coisa do mistério da união com Cristo’ [Bunyan afirmou] e, então, veio a pregar também sobre a união, que era o âmago da espiritualidade calvinista.


A pregação de Bunyan, já não trazia somente “uma palavra de admoestação”, mas também de edificação e consolo para os crentes. Isso fortaleceu muitíssimo sua percepção de seu chamado íntimo, o que ajudou poderosamente a persu