O SENHOR É PASTOR: O relacionamento entre Davi e Deus - Parte 1

Atualizado: 17 de Jul de 2019

por Maykon Renner |



O salmo 23, também conhecido como o salmo do pastor, é, sem dúvida, um dos trechos mais conhecidos em toda a Bíblia; e fonte de inspiração para muitos dos que o leem. Na escrita bíblica, na qual várias metáforas são largamente utilizadas para representar diferentes conceitos a respeito de Deus, no entanto diferente do que se pensa o uso das metáforas é mais complexo do que se imagina e revela bem mais coisas sobre um povo ou cultura do que se imagina. Assim, surgiu o questionamento de quais elementos estariam envolvidos na conhecida metáfora elaborada por Davi no salmo 23 e como essa análise pode ajudar na compreensão do modo com Deus trata seu povo.


O texto a ser analisado é de autoria do Rei Davi. Escolhido para ser rei quando ainda era jovem, segundo a Bíblia, foi um rei bastante próspero e dedicado à composição de diversos hinos judaicos de culto a Deus. Tradicionalmente, dos 150 salmos da bíblia, 73 deles são atribuídos à autoria davídica. Não se sabe ao certo quando o salmo em questão foi escrito, visto que todo o livro de Salmos foi arranjado ao longo de aproximadamente mil anos e é composto por um compêndio das principais músicas da cultura judaica da época (que por sua vez possuem diversos autores). Pelo conteúdo do salmo, é possível que o rei, ao escrever, estivesse relembrando alguns de seus momentos mais difíceis na vida. A partir das imagens apresentadas no salmo 23, veremos, Deus é categorizado, assim como Davi. E é possível formar uma imagem de quem Ele é e de como trata as pessoas com as quais se relaciona.


O artigo original foi destinado a um público diferente para o qual agora irá, e alguns dos conceitos expressos aqui não são tão comuns ao campo da teologia. Isto posto, segue um breve roteiro para orientação. Antes de chegar propriamente a análise do salmo é preciso conhecer alguns dos fundamentos teóricos que envolveram a pesquisa: os princípios de categorização e metáfora conceptual[2]. Ao final poderemos verificar como a função do pastor foi importante na cultura de Israel, como isso se mostrou no salmo 23 a partir da metáfora expressa por Davi e como nossa compressão do modo como Deus trata seu povo é influenciada pelo salmo 23.


O QUE É CATEGORIZAÇÃO


A categorização pode ser entendida da seguinte maneira: capacidade que os seres humanos tem de naturalmente conectar elementos (sejam eles objetos, alimentos, animais, sentimentos etc.) que em determinados contextos estejam cognitivamente relacionados a partir do modo pelo qual eles são vivenciados pelas pessoas ao interagir com a realidade e conceitua-la. As categorias de pensamento evidenciam o modo como o homem pensa. Algumas dessas categorias são naturais enquanto outras são abstratas. Ainda, não apresentam somente elementos inerentes, mas também, arranjos de pensamentos.

Lakoff (1987, p. 84) postula que as categorias são classificadas pelos vários graus de representatividade. Dessa forma, há categorias com um grau menor de representatividade e elas são motivadas pelas categorias com maior grau de representatividade. Como exemplo disso ele cita a categoria “mãe”. Há uma categoria mãe central e dela surgem categorias radiais, que são variações da categoria central. A categoria central mãe é a mulher que deu à luz a uma criança, a alimenta, é casada com o pai e cria a criança. Derivada dessa categoria há as categorias de mãe adotiva, mãe biológica, madrasta ou mãe solteira.


As categorias estão presentes também na linguagem e são classificadas através delas, por isso com relação à linguagem, é certo entender que:


- Evidências sobre a natureza das categorias linguísticas devem contribuir para uma compreensão geral das categorias cognitivas em geral. Porque o idioma tem uma estrutura de categoria tão rica e porque a evidência linguística é tão abundante, o estudo da categorização linguística deve ser uma das principais fontes de evidência da natureza da estrutura da categoria em geral (LAKOF, 1987, pg. 58).