Retomando o Amor à Leitura Pública das Escrituras


Por Stephen O. Presley |


Uma das ironias surpreendentes que a nossa cultura na igreja enfrenta é o simples fato de que à medida que o acesso à Bíblia aumentou a capacidade de lê-la diminuiu. Nos últimos anos, muitos observaram este problema crescente (veja estudo da LifeWay aqui 1 ) e alguns, como Ed Stetzer, propuseram soluções (veja aqui 2 e aqui 3) que defendem, entre outras coisas, o discipulado mais intenso e pequenos grupos de estudos bíblicos. Certamente essas práticas ajudarão e oro para que mais igreja as implementem.


Mas, também quero propor um remédio adicional: retomar o amor pela leitura pública das Escrituras [1].


Eu não presumo que a leitura comunitária das Escrituras solucionará sozinha o problema, mas ela também não pode prejudicar. Se ao menos por algum momento, ela unir toda a igreja num ato comunal de ouvir e se envolver com a Palavra de Deus ela pode nos ajudar a progredir gradualmente em esconder a Palavra em nossos corações.

A leitura pública das Escrituras nas Escrituras

Não há dúvida de que as exortações à leitura comunitária das Escrituras ocorrem tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Poderíamos recorrer às palavras de Moisés, entregues ao povo enquanto aguardavam do outro lado do Jordão, prontos para entrar na terra prometida (Deuteronômio 1.1 ff), ou quando Esdras leu a Lei publicamente para a nação remanescente após o exílio (Neemias 8.1 ff).


No entanto, o Novo Testamento dá diretrizes apostólicas claras para ler as Escrituras publicamente. Por exemplo, o apóstolo Paulo encarrega seu discípulo Timóteo a “aplicar-se à leitura, à exortação e ao ensino” (1 Timóteo 4.13). Ele também ordena a igreja em Colossos a ler sua carta e depois repassá-la a igreja em Laodicéia (Colossenses 4.16). O apóstolo João exorta a leitura pública do Apocalipse quando ele escreve: “Bem-aventurados os que leem e também os que ouvem…” (Apocalipse 1.3).


Seguindo esses exemplos e exortações, a igreja primitiva sempre prezou pela leitura pública das Escrituras. Eles não podiam imaginar um culto sem alguém que lesse boas porções das Escrituras extraídas do cânon. A ideia de que um pastor pudesse ler apenas alguns versos (ou nenhum verso!) e depois entreter a congregação por quarenta minutos com histórias engraçadas e referências da cultura popular, seria para eles na melhor das hipóteses algo bizarro.


Ao contrário, a igreja primitiva acreditava que o encontro regular com a Palavra de Deus, por meio da leitura comunitária das Escrituras, era um dos atos mais espiritualmente formativos para o povo de Deus.


Na igreja primitiva, a leitura pública das Escrituras não era um exercício banal feito por obrigação, mas uma parte vital do culto comunitário da igreja e eles pensavam cuidadosamente sobre (dentre outras coisas) as passagens que eram lidas, o caráter do leitor e o estilo da leitura.


Em primeiro lugar, a igreja primitiva pensou cuidadosamente sobre o conteúdo da leitura pública das Escrituras.

Nos primeiros dias, eles provavelmente seguiram as práticas de leitura comunitária da sinagoga judaica, mas à medida que os escritos do Novo Testamento circulavam, eles começaram a ler tanto o Antigo quanto o Novo Testamento.


Então, na metade do século II, encontramos Justino Mártir reunindo-se com sua congregação local em Roma para ler tanto as “memórias dos apóstolos” (provavelmente os Evangelhos, mas talvez também outros escritos apostólicos) quanto os escritos dos profetas. Justino até mesmo nos diz que eles leem “enquanto o tempo permitir” (que devem ter sido, ao menos, vários capítulos!) e apenas após o leitor terminar que o ministro começa uma exortação [2]. Lá pelo século IV, nós vemos evidência nos escritos de Eusébio de que houve na igreja um longo debate sobre quais textos deveriam ou não deveriam ser lidos no culto [3].


Quando as igrejas escolhiam as leituras tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, elas normalmente seguiam a prática da lectio continua, significando que elas liam através dos livros bíblicos consecutivamente, semana após semana.


Elas também organizaram suas leituras com porções da Lei, Profetas, Evangelhos e Epístolas, garantindo que seu povo recebesse uma dieta bem equilibrada de toda a revelação de Deus [4].


Em segundo lugar, a igreja se preocupava com quem estava lendo as Escrituras.

Abrir o texto e ler as palavras dos profetas e apóstolos não era um ofício que a igreja cumpria levianamente. Pelo contrário, eles designavam indivíduos específicos para ler e já no século II há referência ao ofício do “leitor” [5].


Enquanto os primeiros leitores na igreja provavelmente eram apenas os membros alfabetizados da congregação, por fim a igreja começou a avaliar as qualificações morais e espirituais à semelhança das exigências dos outros ministros [6]. Afinal, não deveriam as pessoas que estavam diante da congregação, proclamando a Palavra de Deus, ser seriamente comprometidas com as palavras que elas liam?


Em um caso fascinante, Cipriano de Cartago nomeou um “confessor” — ou alguém que confessou fielmente a Cristo sob interrogatório e foi liberado mais tarde, como um leitor em sua igreja. Cipriano entendeu que a congregação seria tocada quando ouvisse a boca de uma testemunha fiel ler em alta voz as palavras das Sagradas Escrituras [7].


A questão é que não era qualquer pessoa que estava qualificada a permanecer diante do povo de Deus e ler a Palavra de Deus, mas somente aqueles que amavam a Deus, guardavam a Palavra de Deus e se submetiam humildemente aos ensinamentos das Escrituras.

Em terceiro lugar, a igreja apreciava a leitura habilidosa das Escrituras.

Por fim, na igreja primitiva, a leitura pública não era (como alguns podem imaginar hoje) entediante. Eles não defenderam uma leitura seca e monótona que percorria lentamente através do texto. A leitura pública na igreja primitiva era uma apresentação animada e imaginativa, onde o leitor interpretava o texto através de gestos, timbre, entonação, ritmo e cadência. Em muitos casos, as Escrituras eram cantadas com ou sem acompanhamento musical. O leitor entendia que a leitura pública era uma forma de interpretação e todos os aspectos da apresentação oral ajudavam a comunicar a Palavra de Deus ao povo de Deus.


Por exemplo, Irineu de Lião — um pai da igreja primitiva, observou que os hereges não sabiam como ler Paulo, pois eles ignoravam a gramática e não conseguiam fazer pausa nos intervalos apropriados. Irineu assegurava aos seus leitores que tudo isso influencia a maneira como as Escrituras são interpretadas e compreendidas.

Isso também significa que aquele que lê as Escrituras comunitariamente não era um membro da congregação escolhido aleatoriamente cinco minutos antes do culto começar, mas um estudante sério das Escrituras, que estudou a pronúncia e as nuances de cada passagem.

Retomando o amor à leitura pública das Escrituras

Toda essa reflexão sobre a leitura pública das Escrituras na igreja primitiva nos leva de volta aos exemplos de Moisés, Esdras, Paulo, João e da igreja primitiva que recebeu suas exortações, bem como à questão maior da alfabetização bíblica.

Embora eu creia que haja muitas maneiras de solucionar o problema da alfabetização bíblica, acredito que gastar um pouco mais de tempo lendo as Escrituras no culto certamente ajudaria.

O exemplo da leitura pública das Escrituras na igreja primitiva lembra-nos que cultivar essa arte não acontece por acaso, antes requer reflexão e preparação cuidadosa. Mas talvez, se desejamos que nosso povo retome o amor pela Palavra de Deus, pode valer o esforço.

Stephen O. Presley (Ph.D., University of St Andrews, Scotland) é Associate Professor of Church History and Director of the Center for Early Christian Studies no Southwestern Baptist Theological Seminary. Ele tem servido a igreja através de várias funções ministeriais.


Referências:

[1] Para uma boa introdução à prática da leitura pública das Escritura, veja: Harry Gamble, Books and Readers in the Early Church, 205–31.

[2] Justin Martyr, I Apologia, 67.

[3] Para algumas discussões sobre quais textos devem ou não serem lidos na igreja, veja: Eusebius, Ecclesiastical History, 2.23.25, 3.3.6, 4.23.11, ou 6.12.3–4.

[4] Gamble, Books and Readers in the Early Church, 217.

[5] Por exemplo, veja as primeiras referências a um “leitor” em: Tertullian, Prescription against Heretics, 41 e Hippolytus of Rome, On the Apostolic Tradition, 1.12.

[6] Gamble, Books and Readers in the Early Church, 221–23.

[7] Cyprian of Carthage, Epistle 32.2.

Traduzido por Tiago Silva


Texto original: Recapturing a Love for Public Scripture Reading. In Center For Baptist Renewal

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